Nick Murphy e a força de seu pop forasteiro

Nick Murphy – Run Fast Sleep Naked (2019)

Por Gabriel Sacramento

O produtor de um disco não necessariamente é o cara que cuida dos aspectos técnicos de gravação e da mixagem/masterização. Frequentemente, profissionais especializados são contratados para essas tarefas, e o foco da produção mesmo é voltado para uma outra função, mais conceitual. Sempre gosto de dizer que produção é sobre visão: é como alguém entende que o artista pode falar de uma maneir mais eficiente ao seu público e o conjunto de decisões que afunilam o trabalho para que essa visão seja destacada. Gente famosa como Rick Rubin e Dave Cobb trabalha com essa concepção, em discos que não chegam nem perto de mesas e botões.

Nesse sentido, o trabalho do produtor é guiar e mentorar o(a) artista, direcionando-o(a) para sua melhor versão. Quando o foco é produzir a si mesmo, o desafio é ainda maior: o artista deve ter a habilidade de se dividir em vários e enxergar bem a visão conceitual que quer atingir. Pois bem, encerro minhas digressões com a constatação de que Nick Murphy é muito bom nisso, como provou em Built on Glass, disco de 2014, de sua fase Chet Faker. Ele chegou até a ganhar um prêmio de produtor do ano pelo seu trabalho.

nick murphy

Murphy está de volta com a ajuda de Dave Harrington para Run Fast Sleep Naked, o segundo disco da carreira, dessa vez, não mais como Chet Faker, mas como Nick Murphy mesmo. A mudança de nome não representou uma mudança de sonoridade, no entanto. Temos mais do mesmo vigor e do mesmo apelo pop que marcou o anterior, mas com pequenas surpresas, pequenos easter-eggs musicais no meio do caminho.

Run é popzão e não tem nenhuma vergonha disso. Já na primeira faixa, “Hear It Now”, esse potencial fica claro com um senso de familiaridade que atinge em cheio o ouvinte, pois já estamos bem acostumados a ouvir esses clichês e uma estrutura musical padrão. Mas o disco não perde um por cento da força por confiar nisso, muito pelo contrário: Murphy e Harrington fazem um trabalho que reforça as composições e a simplicidade da música por ela mesma, sem recursos de estúdios, instrumentações mirabolantes, fórmulas mágicas. É só a velha e boa música de sempre, com letras acessíveis e uma musicalidade que sai apertando a mão de todo mundo sem preconceitos, igual político em época de eleição.

Mesmo com a familiaridade, não estamos imunes a pequenos sorrisos de canto de rosto quando ouvimos a gentileza do refrão de “Sunlight”, por exemplo, ou a candura de “Believe Me”. Murphy trabalha com melodias excelentes, grudentas, marcantes e vivas, que pulam do player, felizes da vida, feito criança.

Grande parte do que sustenta o disco são as interpretações sólidas do cantor. Sua voz oferece uma variedade incrível e uma flexibilidade muito boa, fatores que impedem o disco de ser chato e previsível. Vai dos agudos suaves ao grave rasgado, tudo com temperos fortemente emocionais, uma entrega cheia de expressão e honestidade. Um trabalho vocal multicromático e firme, que se encaixa bem em cada proposta, de cada faixa.

Mas a visão dos produtores não fica só nesses elementos que citei. O grande destaque é a forma que eles encontram para expressar uma veia mais experimental do Murphy em pequenos detalhes. São minúsculas partes de arranjo que são fortes o suficiente para gerar incômodo e total desconforto no ouvinte, que se questiona pois está realmente ouvindo um disco pop. Esse tino faz o disco voar mais alto que pops comuns e desenvolver uma linguagem própria, uma espécie de idioma que só tem dois falantes, o próprio álbum e o ouvinte.

Para citar exemplos: temos o final de “Some People”, que parece algo totalmente desconexo do clima folk da faixa até então, com ruídos imponentes tomando conta — algo que me lembra o Chet Murphy ainda em transição, de Missing Link, seu ep de 2017. Na bonitinha “Believe Me”, uma voz robótica entra do nada para reforçar essa cara esquisita do disco — e conseguimos imaginar os produtores se divertindo no estúdio enquanto pensaram naquilo.

Com uma capa que me lembra instantaneamente das paisagens do filme Laurence da Arábia e também 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Run foi feito entre as viagens de Nick Murphy, com vocais gravados em diversos locais diferentes e inusitados, e transmite bem essa ideia de nomadismo e de desconforto com novos lugares. Sua persona musical parece ainda inquieta, sem saber ao certo em que focar, mas seus discos não expressam essa confusão, principalmente por causa de seu trabalho como produtor.

Estamos, senhoras e senhores, diante de um dos melhores discos do ano, feito por alguém que parece ter encontrado a fórmula do pop forasteiro que dá certo. Ouçam.

Nick murphy cantando

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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