Vingadores: Ultimato, a trilha funcional de Alan Silvestri

Vingadores: Ultimato – Trilha Sonora (2019)

Por Gabriel Sacramento

Finalmente, o ciclo terminou. A aventura que começou em 2008, com Homem de Ferro, chegou ao fim com um filme que é praticamente uma longa jornada e um tsunami de emoções. Assistir a Vingadores: Ultimato é uma experiência exigente, mas recompensadora, pois o filme premia os fãs da Marvel com o que eles esperam ver e garante o interesse contínuo do espectador em cada frame.

Felizmente, o que contribui um pouco para tornar a experiência mais agradável é a trilha, composta por ninguém menos que Alan Silvestri. Silvestri é conhecido por ter trabalhado em longas famosíssimos do diretor Robert Zemeckis, como a trilogia De Volta para o Futuro, Náufrago, Forrest Gump e outros. É um compositor respeitadíssimo que já criou verdadeiros hinos memoráveis para traduzir as imagens épicas das telas grandes.

Contudo, os fãs mais antigos hão de lembrar que Silvestri não é um novato no MCU. Ultimato é o quarto trabalho dele com os super-heróis do estúdio do logo vermelho, sendo que o início foi lá em 2011, com o primeiro filme do Capitão América. Alan foi também o compositor de Vingadores, o primeiro filme que marcou a união dessa galera toda, lá no longínquo 2012. Na época, sua principal escolha artística foi abrir mão dos temas fáceis de memorizar, heróicos e grandiosos, com preferência por uma construção gradual da sensação de poder e capacidade desses personagens, assim como o filme, que é uma história de origem. O compositor tinha voltado em 2018, quando trabalhou pela primeira vez com os irmãos Russo em Guerra Infinita.

E se Ultimato é um filme de 3 horas lotado de referências, com uma trama pesada e complexa, a música tenta traduzir isso. Temos, por exemplo, algumas canções sessentistas que tocam na projeção, lembrando levemente a trilha de Doutor Estranho (2016); da mesma forma, o estilo de Guardiões da Galáxia também é rememorado de uma forma interessante. A trilha de Silvestri caminha entre um conjunto definido de humores e sensações, tentando abarcar a identidade dos outros filmes do universo sem que isso ofusque a identidade do projeto sonoro do próprio filme.

Em alguns momentos, temos o bom e velho tom retumbante e forte, que nos leva a entender a força dos super personagens a que estamos assistindo; em outros, o foco é inspirar contemplação, reflexão e provocar emoções no espectador. Nesse sentido, o álbum, quando ouvido sem o filme, nos faz lembrar bem desse arco que nos leva do primeiro ao terceiro ato e nos move durante todo o tempo.

Em termos musicais, no entanto, não há elementos inovadores nesse álbum. Alan Silvestri não é como o Hans Zimmer e prefere focar na orquestração clássica em boa parte de seus arranjos e em variações do seu tema principal de 2012 (que, por sinal, é ótimo). Mesmo que, em alguns momentos, tenhamos uma saída para um jazz mais cool, o álbum não difere muito de algo que podemos esperar de uma trilha comum da Marvel. A tão comentada fórmula dos filmes do MCU atinge a lógica de composição também e impede que os autores expandam seus horizontes. Não é ruim, mas é uma oportunidade desperdiçada.

A fórmula impõe que a música deve cumprir exatamente um papel específico na condução na obra; assim como os outros outros elementos cinematográficos: cinematografia, a edição, o trabalho de som, etc. Por isso, há sempre uma certa formalidade nas faixas de Ultimato, que faz com que o trabalho musical fique entre o épico e o deslocado.

Nesse sentido, parece que a conclusão lógica é dizer que a trilha de Vingadores: Ultimato é ruim por não ser tão eficiente quanto o filme. Contudo, ela funciona bem, de acordo com a proposta do roteiro e da direção, sem invadir os planos, e se mantendo presente de maneira tímida nos falantes. Se o filme também evita invencionismos e olha para trás a fim de fechar o arco que estamos acompanhando há mais de dez anos, Silvestri apresenta um trabalho seguro e consistente, que depende do filme, dos outros filmes e que não fala muito fora do seu contexto. Não é sensacional, fica abaixo de outros trabalhos do compositor, mas é o esperado. E não diminui a força do longa que está próximo de alcançar o posto de maior bilheteria da história.

De certa forma, essa não deixa de ser uma tendência das trilhas de heróis, no geral. Já comentei no especial sobre O Cavaleiro das Trevas que alguns compositores do gênero atualmente estão procurando abordagens mais maduras, diferentes das escolhas mais cartunestas de temas mais épicos, como os de Batman (1989) e Superman (1978). Ou seja, a Marvel está apenas surfando na onda, o que diz muito sobre a forma que eles abordam o gênero em si: sem nada rigorosamente novo, mas, mesmo assim, de uma maneira empolgante e bem organizada. E que venha a próxima fase.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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