“atrás/além” é o jogo de contrastes de O Terno

O Terno – <atrás/além> (2019)

Por Gabriel Sacramento

Antes de escrever esse texto, eu me perguntei: quando exatamente o rock ficou triste? Sem querer esgotar o assunto (talvez continue esse assunto em outro texto. Aguardem.), pensei logo em dois gêneros: post-punk e grunge. A partir de meados dos anos 70, quando bandas como o Joy Division invadiram o mainstream, o gênero começou a falar de temas mais sombrios, que dedicavam-se a rasgar o interior de seus artistas para expor suas ansiedades, medos, inseguranças. A saúde mental se tornou um tema central, mas de um jeito meio desleixado, meio “faça você mesmo”.

Por causa dessas bandas, outros atos vieram depois com propostas extremamente introspectivas, como o Radiohead, e fizeram considerável sucesso. Acredito ainda que essa melancolia do rock ainda serviu de inspiração para uma tristeza pós-moderna que passou a infectar o pop inglês anos 2000/2010 (alô, Adele, James Blunt, CIA). O segredo era a conexão com as pessoas, que se sentiam representadas com seus ídolos cantando sobre o que eles sentiam e não contavam para ninguém.

Hoje, a tristeza é o principal mote para bandas como O Terno, uma grupo paulistano que surgiu em 2009 e que faz um som muito boa-praça, até bem humorado, mas fortemente existencialista e angustiante. Quanto mais o tempo passa, a sensação que temos é que Tim Bernardes, Biel Basile e Guilherme Almeida ficam cada vez mais afiados em suas letras e na proposta art-rock misturada com MPB, soul e outros delírios.

<atrás/além> foi produzido por Bernardes, que trabalhou sozinho no ótimo Recomeçar (2017), mas com contribuições do resto da banda. O disco apresenta mais do rock quieto, introspectivo, que prefere não explodir e que opta pelo silêncio como recurso comunicativo. Bernardes explora uma elegância muito grande em seus arranjos recheados de violões boêmios e de cordas caóticas que me lembram os Beatles — uma das grandes influências do grupo. Esses elementos dão uma classe ao disco e um ar de MPB inteligente.

Além desses elementos, a produção acerta com um controle fenomenal da dinâmica. Esse disco é uma aula de como trabalhar o contraste entre sons mais fortes/agressivos/energéticos com outros mais leves e suaves, sussurrados, sem volume. Frequentemente, a banda interrompe um momento super empolgante com orquestração ou instrumentação ativa e troca para Tim Bernardes cantando de maneira intimista com a base de leve. Tudo é feito de forma tão fluida, sem cortes de edição, como se estivéssemos assistindo O Terno ao vivão mesmo. A produção focou bastante na parte da gravação, com uma execução precisa que transita entre os humores que eles querem representar, sem grandes recursos de estúdio e pós-produção. 

Existe ao menos três lógicas comuns de estruturação de arranjos: 1) lógica padrão da música popular, que eu chamo de formal e que segue estruturas como verso-refrão-verso; 2) lógica cumulativa ou evolutiva, que apresenta uma informação principal e cria camadas em cima dessa informação nas próximas seções, acumulando elementos musicais com o passar do tempo. (Explico isso melhor no Coração Só, da Taís Alvarenga.) Mas temos também a lógica de contrastes, em que cada seção serve para negar o que a gente ouviu na anterior.

Foto: Claudio Gatti

Bernardes, Basile e Almeida abusam dessa última lógica em suas faixas, e não somente nesse disco, aliás. Várias seções mais leves só fazem sentido e geram efeito especial no ouvinte porque precedem alguma seção mais intensa, ou seja, elas se conectam e são interdependentes, mesmo que queiram transmitir ideias e climas contrários. É sensacional ouvir esse disco e perceber como a banda utiliza esse elemento para manipular nossas emoções.

De certa forma, a lógica de contrastes funciona como uma luva dentro do conceito do disco, que trata sobre vazios existenciais e sobre crises e questionamentos filosóficos, éticos e metafísicos, que todos protagonizamos em algum(ns) momento(s) da vida. Mas o disco também é sobre bipolaridade: sobre se contradizer o tempo todo, querer coisas distintas, querer abraçar o mundo com braços minúsculos ou querer e almejar o impossível. Os arranjos funcionam como os sentimentos de uma pessoa comum no nosso século: uma gangorra de emoções, com momentos eufóricos seguidos de instantes tristes, intimistas, frágeis e acústicos.

Não posso terminar sem destacar o trabalho criativo de cada membro em seus instrumentos. Biel, o baterista, está mais livre para experimentar com viradas diferentes e ritmos um pouco mais complexos aqui, enquanto Guilherme, o baixista, nos presenteia com linhas didáticas, melódicas e serelepes, não menos brilhantes por isso. É um trabalho de baixo que vale a pena ser estudado. Para complementar, temos Tim Bernardes, com performances estonteantes, que vão do mais agudo, quase estridente, ao sussurad…baixinh…que…quas…não…complet…as…palavras. Sempre com muita emoção, uma entrega apaixonante e uma devoção arrebatadora ao momento e à mensagem. A reverberação que circunda a voz também é especial, bem noturna, como se estivéssemos ouvindo o cantor em um pub qualquer de Londres.

Com esse disco, O Terno dá um salto gigante rumo à consolidação do seu nome como um dos grandes atos do rock nacional moderno. É uma pena que o rock no Brasil não é mais o que era antes, porque se fosse, eu tenho certeza que essa seria uma das bandas que os jovens roqueiros de 2040 estariam ouvindo e apontando como uma das principais referências. E talvez isso aconteça mesmo.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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