O Anderson Paak de “Ventura” não empolga como antes

Anderson .Paak – Ventura (2019)

Por Gabriel Sacramento

Ventura saiu curiosamente meses depois de Oxnard  (2018) porque ambos foram gravados ao mesmo tempo, como parte da parceria entre Paak e Dr. Dre. O disco segue a mesma ideia de convidar uma série de produtores famosos e vários cantores para contribuir. Aqui, constam Pharrell Williams, Pomo, Callum and Kiefer, entre outros na produção. Já na lista de vozes, estão o lendário Smokey Robinson (uou!), Lalah Hathaway (uou²!), Brandy, Nate Dogg (primo do Snoop, em participação póstuma) e outros.

Os nomes são empolgantes e já prenunciam algo bom por aí. Quando finalmente pressionamos o play, percebemos que Paak tenta emular a soul music de antigamente com veemência, principalmente nas primeiras faixas, “Come Home” e “Make It Better” (que tem a voz do Robinson). Ao longo do álbum, a gente nota que o soul foi uma referência para o cantor, uma tendência anacrônica que difere dos discos anteriores.

No entanto, já nas primeiras faixas, o problema do disco vai ficando evidente. Paak tenta explorar a soul de antigamente de uma maneira burocrática, mecânica, pouco espontânea e com um investimento raso. A sensação é que ele está realmente imitando, e não carregando em seus ombros o peso emocional para lidar com o estilo. Mesmo assim, a faixa de abertura funciona quando André 3000 entra com um rap ágil e rápido, que contrasta bem com as referências clássicas.

O resto do álbum continua investindo no som típico do Anderson, misturado com uma veia de R&B mais noventista, um pouco de R&B anos 2000 e, é claro, hip-hop. Tudo isso soa bem bagunçado, a propósito. A burocracia das primeiras faixas segue nas seguintes, com a sensação de que estamos ouvindo algo batido, autorreferencial e insosso, que possui todos os elementos necessários para empolgar, mas não consegue chegar a isso. “Twilight”, por exemplo, é uma canção de sobra dos Neptunes que é, inclusive, produzida por Pharrell, mas que soa tãaaao preguiçosa que dá sono. As melodias são coisa de um R&B datado, que não se encaixa mais no contexto moderno e a linguagem musical simplesmente não impressiona.

No meio de tudo isso, temos “Reachin’ 2 Much”, com Lalah Hathaway fazendo backing-vocals legais e fazendo aquela harmonia com sua própria voz no finalzinho (como ela faz isso!???), que é um dos poucos momentos em que eu esbocei um sorriso espontaneamente enquanto ouvia esse disco. Donny Hathaway ficaria orgulhoso.

Outro grande problema de Ventura é que algumas canções parecem bem inacabadas. Me parece que a causa para isso tenha sido a pressa para lançar e o fato de que o cantor e Dr. Dre estavam trabalhando em dois projetos ao mesmo tempo. O que deixa isso evidente é o fato de que temos faixas com seções bem construídas intercaladas com momentos mais fracos, que desviam a atenção da audiência instantaneamente; e o fato de que algumas soam como um conjunto de fragmentos, com boas e outras não tão boas ideias misturadas ao léu.

Com todas as ressalvas tendo sido expostas, tenho que admitir que o hip-hop funciona nesse disco, e quase sempre é a melhor parte das faixas, acrescendo sempre uma dinâmica interessante com o R&B. Paak é muito bom nessa função e suas participações também contribuem bastante. Contudo, aquela fluidez com que ele pulava do melódico para o rapeado no ano passado, mudando de personagens rapidamente como James McAvoy em Fragmentado, não é tão evidente em Ventura. Infelizmente.

As letras também são legais. Abordam sua vida, seus relacionamentos, mas possuem referências inteligentes colocadas em pontos estratégicos. Em uma das mais marcantes e mais bem contextualizadas, temos o trecho autoexplicativo “se eles construírem o muro, a gente pula a cerca”, em “King James”, que, aliás, é uma faixa que homenageia o Lebron James e seus importantes projetos sociais.

Depois de Ventura, voltei rapidamente para ouvir Oxnard, e a diferença é gritante: enquanto este é carismático, engajante e dinâmico, além de complexo à sua maneira, aquele é pragmático demais e pouco convincente. Mesmo com um disco claramente desnecessário, termino esse texto com a mesma certeza que terminei o de Oxnard. Vale a pena acompanhar o cara, sim. Mesmo que isso signifique ter que buscar discos anteriores.

Foto: Kevin Winter

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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