“Kind of Blue”, o disco de jazz mais vendido de sempre, completa 60 anos

Miles Davis – Kind of Blue (1959)

Por Gabriel Sacramento

Kind of Blue pode não ser o seu disco favorito do Miles Davis, mas você deve reconhecer a sua importância. Ou talvez você não seja nem um grande fã do trompetista, mas precisa conhecer a história do período em que ele e seu time de músicos brilhantes escreveram em dois dias a tábua dos testamentos do jazz, um verdadeiro magnum opus que ajudou a construir um modo de pensar música dali em diante. E esta obra completa 60 anos em 2019.

Produzido por Irving Townsend, o disco só precisa de cinco músicas para dizer tudo o que precisa ao ouvinte. O line-up é um dos melhores da história, um verdadeiro supergrupo: Bill Evans no piano, John Coltrane no sax tenor, Julian Adderley no sax alto, Paul Chambers no baixo e Jimmy Cobb, bateria. Desses, apenas Cobb está vivo para contar a história. O álbum nos conta muito sobre como aqueles músicos pensavam e viviam música.

É um disco que assume uma sonoridade mais limpa e tranquila, associada com o Cool Jazz, estilo que Davis ajudou a pavimentar. Claramente diferente do ótimo Milestones, um dos anteriores do trompetista, que é marcado por uma sonoridade dinâmica, dançante, vibrante e sinuosa. Kind of Blue é uma investigação introspectiva do músico em seu próprio estilo. No entanto, é também um disco extremamente complexo e, quando foi lançado, em 1959, estava a frente de seu tempo na forma como abordava a harmonia, com o foco nos chamados modos gregos, e não em acordes como a música popular comum.

Basicamente, a diferença é que, com os modos, você tem uma harmonia menos organizada e acessível, que pode assumir fluxos diferentes a depender da abordagem do solista. Com isso, os músicos tinham mais espaço para improvisação livre e despreocupada, deixando sua imaginação trabalhar na busca de sons expansivos e nirvânicos. É basicamente o que temos em termos de solo nesse álbum: uma mistura de emoção e interpretações comoventes com um brilho técnico e um senso de criatividade que desconhece limites.  

A produção utiliza isso muito bem como um elemento para subverter as expectativas do ouvinte e convidá-lo a uma jornada por dentro das mentes dos músicos. Contudo, Townsend cuidou para que o disco soasse acessível, com arranjos cíclicos e temas bem definidos, que ficam claros para o ouvinte. Isso fez com que Kind of Blue facilmente saísse dos guetos do jazz para visitar outras vielas e conquistar outras pessoas.

Foto: Jean-Pierre Leloir

E como estamos falando de um dos repertórios mais icônicos de todos os tempos, vale comentar as faixas. Vamos a elas. “So What” tem uma das linhas de baixo mais memoráveis do gênero, com Paul Chambers escolhendo o caminho para que os metais e o piano acompanhem, enquanto Cobb trabalha com triplets ao fundo. Então, os solos preenchem a faixa até que Chambers volta para o riff inicial e fecha a faixa de abertura, um final que eu, particularmente, adoro ouvir toda vez.

“Freddie Freeloader” segue com a mesma estrutura e um riff bem memorável. “Blue In Green” já arrepia com a primeira nota de Davis com cerca de 20 segundos. Sua interpretação é uma das mais tocantes do álbum, com um belo equilíbrio de dinâmica que conta toda a história da faixa. Evans também está brilhante, oferecendo sequências de acordes complexos e rápidos em uma explosão de intelectualidade e sentimento. Ah, e não posso esquecer do impressionante solo de sax do grande John Coltrane, uma dos mais icônicos do músico, cheio de brilho, cor e de feeling.

“All Green”, a mais longa do álbum, é uma faixa mais rítmica, que brinca com pequenas ondas de ritmo que vão e vêm, nos brindando com momentos mais intensos. A sincronia entre os músicos é incrível, assim como a organização do arranjo com cada componente se ajudando ativamente. Por fim, “Flamenco Sketches” brinca com o silêncio e dá adeus ao ouvinte, finalizando a sessão de calmaria e de genialidade musical.

Kind of Blue é o resultado de sete músicos brilhantes unidos em busca de uma nova forma de expressão, mais abrangente e holística, que escancara os sentimentos e atinge o ouvinte no seu intelecto na mesma medida. O disco mais vendido da história do gênero ensinou os músicos a fugirem um pouco da harmonia tradicional e a usarem os espaços vazios para contar histórias.  

Depois desse disco, Davis experimentaria com a música européia no ótimo Sketches of Spain (1960), com o fusion em In a Silent Way (1969) e em Bitches Brew (1970) e com outros subgêneros ao longo de uma brilhante jornada. Kind of Blue encontra fortes concorrentes em sua discografia, mas seu jeito único de transmitir sua mensagem faz o disco ser especial e incomparável. Para sempre.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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