“Begin Again”, da Norah Jones, é jazz com pitadas experimentais

Norah Jones – Begin Again (2019)

Por Gabriel Sacramento

Begin Again é, afinal, mais jazz do que eu esperava, mas menos jazz do que Day Breaks. Em um primeiro momento, numa audição corrida, pensei que tratava-se de uma mera continuação do disco de 2016, seguindo as batidas naturais da carreira de Norah Jones, que agora voltou ao seu porto seguro depois de ter ido dar umas voltas em alto mar. Mas o disco é, felizmente, muito mais do que isso.

A cantora americana colaborou com gente diferente dessa vez e buscou um processo criativo mais aberto e mais livre, improvisado, o que rendeu um tom experimental inevitável. Christopher Tomas, Dave Guy, Leon Michels, Thomas Bartlett e Jeff Tweedy são alguns dos nomes envolvidos no novo disco. Os dois últimos foram responsáveis por produzir quatro das sete faixas, inclusive. O trabalho técnico de som ficou por conta de Patrick Dillet, o sensacional Tom Elmhirst — um colaborador frequente —, Tom Schick e Brandon Bost.

Esse relação de nomes faz a diferença no resultado. Begin Again é um disco menos uniforme que o anterior e parece realmente ter envolvido menos rigor na sua criação do que qualquer outro disco que já tinha ouvido da Norah. Cada produtor coloca um pouco de sua personalidade aqui, e isso gera um bom efeito. A cantora produziu três canções: as jazzy “Begin Again” e “It Was You” e a levemente fora da curva “Just a Little Bit”. Seu estilo de produção é focado na quietude que ela adora explorar, com foco na força do silêncio e em repetições gentis. “Just a Little Bit”, por exemplo, é fincada em um acento rítmico quebrado que funciona como o motivo da canção e o principal motor de interesse.

“My Heart Is Full” e “Uh-Oh” são as contribuições de Thomas Bartlett no comando da direção criativa. Ambas são enigmáticas e possuem um certo clima profundo e sorrateiro, usando os recursos de som e a timbragem como argumentos para desvirtuar as expectativas do ouvinte. Antes de finalizar o parágrafo, no entanto, tenho que pontuar que “Uh-Oh” é a faixa mais difícil de decifrar do disco, pois parece sempre ter algo a dizer que o ouvinte não captou de primeira, nem na segunda, nem na terceira audição.

As contribuições de Tweedy, em “A Song With No Name” e “Wintertime”, agregam com uma veia mais folk naturalista e até meio country. A última soa, no entanto, como uma típica música da Norah com a adição de uma guitarrinha que fala o sotaque do sul dos Estados Unidos. É bonita, é gentil, delicada e suave do jeito que a NJ sabe fazer muito bem e do jeito que conquistou todo mundo quando ela surgiu em 2002.

Falemos então do trabalho de som do disco. Grande parte da identidade misteriosa do disco depende da forma como os engenheiros operaram a mesa de mixagem. Alguns efeitos bem criativos dão uma cor especial, como o delay longo de “My Heart Is Full” — que funciona como esquema de perguntas-respostas inteligentíssimo —, o delay curtíssimo de “A Song With No Name” e o efeito especial, que soa quase como um flanger, na voz em “Just A Little Bit”. São pequenos detalhes, mas que chamam a atenção e fazem a diferença. Boa, Norah.

Begin Again é um disco que ainda mantém a veia sensível e suave da sonoridade típica da Norah Jones, mas com um toque experimental sutil. A única falha do álbum talvez seja o tamanho, pois ele deixa o ouvinte com água na boca e com vontade de ouvir um pouco mais da cantora se aventurando por outros universos, como fez em Little Broken Hearts (olá, sumido!), por exemplo. Mas não é um disco ruim. Vale a audição.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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