Novo disco do Supercombo falha em demonstrar maturidade

Supercombo – Adeus, Aurora (2019)

Por Gabriel Sacramento

Em 2016, um empolgado Gabriel Sacramento escreveu que o Supercombo finalmente tinha se libertado das amarras do programa global, o Superstar, e projetado o seu nome como um grupo sério, maduro e interessado em temáticas complexas e realistas. Rogério foi uma boa surpresa para mim, que me fez enxergar a banda com outros olhos e começar a acompanhar a carreira dos capixabas com mais afinco. Comecei a levar a sério naquela época, mesmo já conhecendo a banda de outros verões.

Adeus, Aurora é o quinto trabalho deste jovem grupo, produzido pela própria banda e mixado pelo vocalista Leonardo Ramos. Além dele, a banda é Carol Navarro no baixo/voz, Paulo Vaz nas teclas e programações, André Dea, que substituiu o ótimo Raul de Paula na bateria, e Pedro Ramos na guitarra/voz.

Pois bem, Adeus, Aurora não segue as empolgantes premissas de Rogério e tampouco volta ao indie rock que a banda já explorou. O disco novo meio que navega pelas águas do indie pop florido e ensolarado de “Piloto Automático”, só que em dimensões bem maiores. Contudo, não é só isso: a banda busca uma série de referências diferentes e expande o som para além do que estavam acostumados.

Só que a produção não acerta a mão no uso dessas referências e acaba criando um disco confuso em termos de clima e direcionamento musical. “Guarda-chuva” abre o trabalho sugerindo uma veia bem mais pop, com uma guitarrinha onipresente meio James Bay, inocente e sorrateira. Várias faixas iniciam com o mesmo humor: mais aberto para o mundo, positivo, em contraste com o teor pesado, rabugento e obscuro do anterior. Mas, a banda insere elementos mais roqueiros aqui e ali, sem nexo algum, sem conexão com o propósito geral e que simplesmente não funcionam como componentes geradores de energia. Esses riffs roubam a cena, mas não acrescentam peso nenhum ao disco, que continua leve e lânguido. Parecem jogados, como para parecer que é um disco de rock, afinal.

Parte disso é culpa da mixagem de Leonardo Ramos, que, ao invés de acrescentar uma força maior aos acentos, os deixa contextualizados demais no espectro, o que faz com que não explodam como deveriam. É como um grito muito alto abafado por um pano ou como uma explosão no nível mais profundo do oceano. No geral, seu trabalho de som é uniforme e magro, sem nenhum destaque especial para timbres ou efeitos. Serve muito bem para priorizar as letras, no entanto.

Outro problema do disco é a aplicação de clichês e de ideias de outros gêneros mais populares por obrigação e não por inspiração. Para tentar forçar um som mais leve e florido, a banda acaba pegando estruturas prontas emprestadas e perdendo a espontaneidade, a honestidade e a originalidade no processo. Aqui, esses clichês estão por toda parte: seja uma melodiazinha iniciando uma faixa com um timbre pop super batido, uma batida de reggae ou um beat eletrônico. Isso sem contar as guitarras ensolaradas e soltinhas que já fizeram participação especial em mais de 500 discos por aí. Junte isso com as estruturas previsíveis e você tem um disco que não se esforça nem um pouco em alimentar o senso de curiosidade e que simplesmente não cria uma conexão que vá além da ponta do iceberg com o seu interlocutor.

Adeus, Aurora termina como um disco que até tem algo a dizer, mas simplesmente não sabe a melhor forma. O álbum falha em apresentar uma banda que se diz madura, mais vivida e preparada para os fãs mais exigentes, já que investe em letras ainda bobas, levemente adolescentes e em uma abordagem autorreferencial e autoindulgente também. Se em Rogério, tínhamos uma sonoridade extremamente equilibrada, Adeus, Aurora parece a criação de um grupo perdido em seus próprios devaneios.

A banda deixa claro que ainda não encontrou o seu tom, o seu jeito de fazer as coisas — o que foi tão rápido para outros grupos contemporâneos, como o Scalene e o Far From Alaska.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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