Periphery segue firme com sonoridade ostensiva e triangular

Periphery – Periphery IV: HAIL STAN (2019)

Por Gabriel Sacramento

O Periphery finalmente está de volta para mais uma odisseia de vigor e técnica. Progressividade e uma veia punk intocada. HAIL STAN é o sexto capítulo da discografia do grupo, e, mesmo depois de todos esses anos de estrada, eles continuam firmes e sólidos.

HAIL STAN foi produzido mais uma vez por Misha Mansoor, um dos principais nomes da cena djent, e mixado pelo ex-baixista Adam Getgood, que, mesmo não sendo mais um membro, contribui com os baixos e com a engenharia. O resto da banda é a galera de sempre: Spencer Sotelo nos vocais, Jake Bowen, Mark Holcomb e o próprio Mansoor nas seis cordas e Matt Halpern na bateria.

Em termos de produção, o disco novo é marcado por um controle insano das três principais facetas da banda: virtuosismo, peso descomunal e melodias. São como os três lados do triângulo da arte da capa, iguais, mas dependentes para formar um todo que faça sentido. Aqui, essas características parecem estar amplificadas, como se tivessem sido impulsionadas para o limite e, ao mesmo tempo, convivem bem umas com as outras por causa da produção equilibrada, extremamente racional e autoconsciente de Mansoor. O produtor conhece muito bem sua banda e sabe bem o que vale a pena explorar.

Isso já destaca a banda no meio dos grupos de post-hardcore, mathcore e metalcore comuns. Geralmente, essas bandas trabalham com uma sonoridade dual, indo e vindo do peso para momentos melódicos de alívio, a velha interpretação do clichê tensão-resolução, de uma forma bem formulaica. O Periphery não soa assim em seu novo disco, mas foge da previsibilidade em passeios longos e aleatórios por cada um dos universos e paradas ocasionais em becos sombrios e sujos.

“Blood Eagle” é a coisa mais pesada que ouvi em 2019 e uma das faixas mais brutais que ouvi em um bom tempo. Eu diria que poderia estar em Forever (2017), do Code Orange. É truculenta, sangrenta, dark e não deixa o ouvinte respirar com guitarras musculosas e uma bateria de dimensões galácticas. “Reptile” é uma faixa de 16 minutos que demonstra como a banda consegue arquitetar arranjos dinâmicos e interessantes que levam o ouvinte a distintos locais e nunca perdem o appeal.

As três guitarras se unem em riffs secos e brutos, intransigentes, sujos e fortemente rítmicos, o que mantém as faixas firmes e nos lembram de bandas como a Animal As Leaders. Mas também entregam linhas melódicas mais criativas e riffs mais desafiadores do ponto de vista técnico. Destaco também a performance de Matt Halpern na condução do kit, com muita energia e força para desmoronar muros enormes. Já o Spencer entrega interpretações catárticas e expressivas que parecem sempre prontas para atingir tons ainda mais altos e ainda mais complexos. O vocalista canta o desespero e o caos emocional como poucos dentro desse contexto.

Por melhor que seja em seus grandes momentos, HAIL STAN perde força em um momento específico, na faixa “It’s Only Smiles”. Nessa, eles tentam uma incursão por algo predominantemente melódico, que abre mão das outras duas características. No entanto, o controle do produtor é jogado água abaixo e ouvimos uma banda que cai para o genérico e formulaico, soando quase como um Emarosa ou simplesmente qualquer outro grupo do subgênero. Em “Crush”, eles também exploram esse foco nas melodias vocais, mas sem negociar o senso de confusão e a ousadia em combinar elementos dissonantes que não sacrificam a proposta.

O quarto disco autointitulado do Periphery fica no quase, mas funciona bem como um termômetro da saúde da fórmula da banda. A banda simplesmente nos convence de que essa forma de metal progressivo djent não está nem um pouco datada nem próximo da expiração da validade. Tem muito gás, muito combustível a frente e muitas paredes para destruir.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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