Billie Eilish apresenta o terror na perspectiva do pop adolescente

Billie Eilish – When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (2019)

Por Gabriel Sacramento

“Thriller” — a música, não o álbum — é o videoclipe mais famoso de todos os tempos e também uma das mais bem-sucedidas tentativas de abordar o pop com a estética do horror. A época era ótima para isso: os anos 80, dos Slashers, em que o gênero estava vivendo uma fase extremamente frutífera e empolgante. Décadas depois, uma jovem californiana tenta emular o terror na música mainstream de novo, partindo de uma essência que deve muito à Avril Lavigne e Lana Del Rey e que foi chamada de rock’n’roll pelo Dave Grohl. Billie Eilish finalmente lançou seu disco de estreia, When We All Fall Asleep, Where Do We Go?.

Eilish é uma daquelas sensações que explodiram antes mesmo de lançar o primeiro trabalho — o que é bom e é ruim ao mesmo tempo. Mesmo sendo muito nova (17 anos), ela conseguiu administrar a carreira e manter-se fiel a sua estética favorita e ao som que ela queria fazer. Junto com seu irmão, o compositor e produtor Finneas O’Connell, Eilish deseja o topo do pop, mas ela é quem escolhe o caminho. (Ao menos, no momento em que escrevo, todas as músicas se encontram entre as mais ouvidas no Spotify.)

Where We Fall é um disco ousado, que se apega ao terror de corpo e alma. Não é mais uma tentativa barata de capitalizar em cima de uma temática obscura, como pode parecer. A produção competente de Finneas garante um cuidado com o minimalismo, com poucos elementos interagindo entre si por vez, e arquiteta o clima de assombro com muita classe. Em “bury a friend”, por exemplo, a base harmônica é composta por notas pontuais de baixo bem graves e distantes, que soam como se a instrumentação se escondesse do ouvinte para o assustar em um jumpscare. Finneas sempre brinca com as ideias instrumentais que surgem nos arranjos e se diverte com elas, inserindo também sons agudos esquisitões e incômodos, que agregam um forte senso de estranheza, desconforto e tensão, como em uma boa trilha de terror mesmo.

E as letras reforçam a ideia das artes, da capa e dos clipes, com temáticas obscuras, como “enterrar um amigo”, monstros, referências ao inferno, sangue, entre outras coisas que fazem as pessoas não dormirem à noite. Mesmo que seja uma releitura meio adolescente desses temas, as letras complementam bem o espírito (ótima escolha de palavras) do álbum.

O produtor também trabalha o terror com o foco nos graves: é um disco para ser ouvido em equipamentos de qualidade que permitam que o ouvinte perceba a profundidade dos riffs de sintetizador e dos beats. É uma sonoridade obscura, subterrânea e suja. As frequências mais baixas são ótimas para isso, pois aludem à lentidão, morosidade e a grandes espaços vazios. Como grandes porões que ninguém quer visitar por medo do que pode estar escondido lá.

A voz da Eilish também merece destaque. Sua interpretação é sempre muito sussurrada, frágil, maleável, como quem grita por socorro, mas em pouco volume, porque já perdeu as forças. O controle da respiração é notável, e a articulação das palavras é difícil e feita com muita expressão e sentimento.

O álbum assegura o interesse contínuo ao mesmo tempo em que testa a paciência do ouvinte quando decide misturar canções mais dark, como “bury a friend”, com momentos mais calmos e fofos, como “8” e “i love you” (título criativo!). Ok, essa mistura é compreensível, já que estamos no século 21 e os artistas precisam dinamizar tudo. Ok, de novo: “listen before i go” é uma belíssima balada que chama a atenção para a capacidade de escrita desses dois irmãos e parece algo que o James Blake poderia ter assinado.

Contudo, mesmo nos momentos mais diferentes, o produtor mantém o controle do minimalismo e da tensão-resolução, acionando o freio sempre que o disco arrisca se tornar colorido demais. Ao final, chegamos à conclusão de que a dupla conseguiu explorar muito bem diferentes tons de preto-e-branco e entregar um produto coeso. O que me resta depois desses 42 minutos é curiosidade. Quero ver para onde essa jovem vai e até onde ela vai carregar essa temática sombria.  

 

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.