Christian Scott e seus rituais de redenção em “Ancestral Recall”

Christian Scott aTunde Adjuah – Ancestral Recall (2019)

Por Gabriel Sacramento

Christian Scott segue como um jazzistas mais influentes e brilhantes dos nossos tempos. E mais uma vez, ele insiste em fazer um disco-manifesto, no qual, fala bastante com escolhas músicas e alude a fragmentos de letras também. Seu objetivo é levar adiante seu conceito de “stretch music”, compreendendo o jazz como um gênero atemporal e histórico, mas que pode abranger diferentes universos dentro dele, o que o torna ainda mais complexo, estimulante e intenso. Scott consegue fazer sua música ser a exata representação disso, sem mais nem menos.

O músico também parece sempre faminto por mais e sempre disposto a entregar resultados inspirados. Sua capacidade de fazer novas músicas e de lançar supera a capacidade do público de acompanhar tudo — e ele não se importa nem um pouco. Em 2017, lançou uma trilogia de álbuns: Diaspora, Ruler Rebel e The Emancipation Procrastination. Isso depois de ter lançado um grande álbum em 2015. E, finalmente, dois anos depois da trilogia, Ancestral Recall está entre nós. Uau.

Para Ancestral Recall, o trompetista continuou a parceria com velhos conhecidos, como a flautista Elena Pinderhughes, e chamou novos membros para contribuir, como o rapper Saul Williams. Mas o principal personagem desse belíssimo roteiro ainda é Christian, que assume as funções de diversos instrumentos e ainda assinala a produção. A mixagem, por sua vez, ficou a cargo de Qmillion e foi realizada em Los Angeles, no Flyin’ Dread Studio.

Na tentativa de musicalizar rituais africanos clássicos, a produção foca em um componente naturalístico muito forte, construindo paisagens sonoras que parecem estar ao ar livre. Os instrumentos soam tocados pela atmosfera, sem paredes para limitá-los, e livres para dialogar e interagir com os objetos típicos da natureza. O senso de espaço é tão marcante que, em alguns momentos, sentimos o vento em nossos ouvidos, quase nos convidando a ouvir o disco fora de casa.

Mas em termos de arranjos, Scott foge da complexidade típica de um jazz mais purista e da obrigação de ser dinâmico e extremamente inventivo. Não é um disco de músicos virtuosos se gabando do quão rápido conseguem improvisar. O foco é totalmente na atmosfera e na busca por um som que coloque o ouvinte em um lugar específico. Para isso, o compositor encontra sempre um groove ou ritmo de base para as faixas e as desenvolve com a paleta de instrumentos à sua disposição. Ideias de solo e polifonias se encontram com os grooves e os complementam, sem roubar o brilho deles.

Evidentemente, trata-se também de um disco político. Scott se volta para a África e para os sons e ritmos africanos pulsantes e, com eles, escreve seu manifesto sobre a necessidade de compreensão e aceitação de diferentes formas de som e diferentes raças de pessoas para que vivamos em harmonia. “Todos os sons são válidos, bem como todas as pessoas”, chegou a dizer o músico. Sua “stretch music” mistura africanidades com hip-hop e elementos modernosos para dizer que o passado e o futuro podem, sim, conviver em paz, com respeito mútuo e bom senso.    

Nesse sentido, Ancestral Recall se assemelha com Your Queen is A Reptile (2018), mesmo que sejam discos bem diferentes. Christian Scott consegue dizer muito com a música e as escolhas artísticas o que o disco do Sons of Kemet dizia mais com os títulos e as motivações das composições. Mas também me lembra os discos do Seun Kuti, que trabalham com a ideia de aproximar o jazz de suas raízes negras.

Claro, tenho que falar também do trabalho de mix do Qmillion. Seu tratamento dos instrumentos de sopro é incrível: soam pouco definidos e muito aéreos, o que reforça o senso de que os instrumentos estão flutuando no céu. As percussões são muito vívidas e fortes, e a leve confusão dos elementos combinados é pungente o suficiente para fazer a gente sentir a forte sincronia da banda. É um trabalho de som muito focado em buscar sons de sala e objetos não-musicais, focando em fazê-los soar musicais e rítmicos de uma maneira esplendorosa.

Com seus ritmos vibrantes e suas melodias abstratas, Christian também é capaz de imprimir um senso de celebração e de solenidade, que me lembrou muito o efeito que senti ao deixar o cinema depois de Pantera Negra. A trilha do filme também me deixou empolgado justamente por explorar a interação entre a cultura negra africana e a cultura negra americana moderna. Nenhum disco de jazz neste ano chegou ao nível de Ancestral Recall e arrisco dizer que estamos diante de um disco que vai ganhar novos significados com o passar dos anos e se tornar algo bem maior. Conto com isso.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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