Liniker e os Caramelows prova que é muito mais do que soul revival

Liniker e os Caramelows – Goela Abaixo (2019)

Por Gabriel Sacramento

É interessante notar que o Brasil não está imune à onda de revivalismo da soul music que tem tomado a cena musical de assalto, principalmente desde 2006, com Back to Black, da Amy Winehouse. Claro, não é a primeira vez que isso acontece desde os anos de ouro do gênero, mas essa fase recente tem sido bastante expressiva e tem sido marcada por um purismo e fidelidade aos detalhes dos grandes discos que fizeram história. 

Também é interessante notar que não é só isso que marca a musicalidade deste jovem e promissor grupo paulista Liniker e os Caramelows. Por mais que as pessoas tentem colocá-lo nessa caixinha, eles parecem sempre achar um meio de sair e de mostrar uma complexidade absurdamente maior e mais fascinante. 

Goela Abaixo é o segundo trabalho do grupo, depois da estreia com o bom Remonta (2016). O disco novo foi produzido pelo baixista da equipe, o Rafael Barone. A banda também é formada por William Zaharanszki (guitarra), Pericles Zuanon (bateria), Márcio Bortoloti (trompete), Renata Éssis (backing-vocal), Marja Lenski (percussão), Fernando TRZ (teclado), Eder Araújo (sax) e Liniker (voz). É uma senhora banda, com muito a dizer.

A produção foca bastante na versatilidade musical dessa assembleia de músicos extremamente competentes. Em alguns momentos, a instrumentação é fortemente interventora nos arranjos, ditando os rumos, com melodias e ritmos proeminentes e momentos dinâmicos de solos e grooves que arrasam quarteirões; já em outros, é uma base simples, tímida, confortável e respeitosa, de apoio à voz. A consistência do grupo é formada pela consonância e pela sincronia entre os sons, além de uma forma poética de encontrar bons caminhos e escolhas sônicas. 

A diversidade instrumental permite que eles explorem diversos guetos e abarquem diferentes universos de referências. A banda passeia por diversos subgêneros, brinca com referências regionais e até mesmo brinda o ouvinte com passagens psicodélicas, viajantes e imponentes. São breves momentos de clareza, de virtude, devaneios composicionais que duram pouco, mas deixam claro que o horizonte da banda está bem distante do que o que a gente pensa.

A produção também acerta em priorizar a atração principal do trabalho: a voz de Liniker. Suas interpretações são extremamente cheias de cores diferentes, indo do suave, romântico e sensual ao forte, seguro e imponente, mas também dando um olá para o debochado e o irônico. É como assistir a uma boa atriz oferecendo um trabalho multidimensional, complexo e mirabolante à audiência, enquanto tentamos decifrar seu personagem. Liniker também consegue facilmente emocionar, sendo que nas baladas da parte B, o brilhantismo de seu trabalho vocal deixa o ouvinte boquiaberto.

Gravado em diversos estúdios, incluindo alguns estrangeiros, mas mixado por Rafaela Prestes, o disco também possui um som muito marcante, com escolhas ousadas que nos dizem muito. A mixagem assume um estilo bem old-school, típico da soul de antigamente, mas, em diversos momentos, opta por uma pegada própria. Goela Abaixo é um disco plural que sabe destacar seus talentos e impressionar o ouvinte com sua concisão. Vale a pena acompanhar essa banda.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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