Nick Waterhouse resgata a essência do rock em seus primórdios

Nick Waterhouse – Nick Waterhouse (2019)

Por Gabriel Sacramento

Como alguém que gosta bastante da música dos anos 50, fico feliz e triste pela carreira do Nick Waterhouse. Feliz porque consigo enxergar valor na proposta que ele vende, de resgatar sons da época com honestidade e afinco, mas triste porque é fácil entender que seus discos se encaixam mal na modernidade e, por isso, são menos reconhecidos do que deveriam. Mesmo com as ressalvas, 7 anos depois, o jovem americano segue fiel no seu revivalismo consciente. Ele parece um músico inquieto obcecado pelas décadas anteriores e busca o espírito de outrora para fazer pulsar sua música.

Como um revivalista, Waterhouse facilmente se destaca em meio a multidão, pois seu interesse é pelo som que está entre o rhythm and blues, o soul e o rock and roll dos anos 50, nos seus primórdios, ou seja, um nicho específico e pouco revisitado atualmente. No proto-rock, já guitarreiro, mas limpo, Nick encontra as bases para construir sua musicalidade. O seu auto-intitulado é seu quarto trabalho e foi produzido, gravado e mixado por Paul Butler, um cara que já trabalhou com Michael Kiwanuka e St. Paul and The Broken Bones. É o quarto produtor diferente que assina um disco do americano, mas a essência é basicamente a mesma.

Waterhouse é um grande purista, daqueles que estão preocupados com cada mínimo detalhe e cada minúcia que compõe as imagens que tenta desenhar com suas guitarras, baterias e vocais. Butler entendeu muito bem a proposta e foca nos elementos certos: na secura da instrumentação, no senso de energia orgânica e na emulação fiel do jeito de pensar de artistas que dominavam as paradas antigamente.

Por isso, por mais quadrado que Waterhouse consiga soar com suas estruturas certinhas e suas melodias amigáveis, ele soa bem subversivo nos tempos atuais. O que gera essa urgência é justamente o fato de que o disco está fundamentado em um padrão que não é popular, que não se encaixa no que é considerado “certo” e “ideal” no mundo fonográfico, resgatando, portanto, o espírito do rock quando surgiu: deslocado, como o menino que sofria bullying no colégio por não se adaptar. A rebeldia é transmitida e canalizada de formas diferentes, por meio de uma forma de música que encara com bons olhos o entretenimento fugaz, a dança, a alegria e a celebração, o que também era a marca do rock and roll quando despontou nos 50s.

Os músicos e fãs de instrumentos vintage irão se deliciar com a mixagem e o trabalho de som do disco. Como o design de produção de um filme de época, o objetivo aqui é recriar a época e os cenários sonoros comuns e uma produção musical daqueles tempos. A engenharia consegue transmitir isso perfeitamente com os timbres abafados, rústicos e com um senso lo-fi de disco gravado ao vivo, sem muito tratamento posterior. É um trabalho muito mais focado em posicionamento de microfones e em conseguir a sala adequada para os timbres respirarem do que em recursos de pós-produção. Não é nada brilhante, mas denuncia que o produtor ao menos estudou bastante o que pretendia emular e fez o dever de casa bem feito.

Quatro discos depois, Nick Waterhouse continua fazendo o que gosta e se aperfeiçoando nisso. Seu disco novo é anacrônico e funciona bem como uma obra que precisa alimentar a nostalgia e depende dela para se vender. Um disco que não precisa fazer você pensar demais para que goste dele. Se não estiver cheio de discos revivalistas, pode encarar.

 

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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