Em “Immigrance”, o Snarky Puppy explora o poder educativo do jazz

Snarky Puppy – Immigrance (2019)

Por Gabriel Sacramento

O Snarky Puppy é mais um desses coletivos com uma quantidade impressionante de membros que consegue conectá-los muito bem entre si, e isso fala com os ouvintes de uma maneira marcante e especial. Exaltando o poder da colaboração, da união, da sinergia, do altruísmo. Mais especificamente, gosto da forma como eles soam educativos, como se quisessem explorar a capacidade do jazz de contar histórias e de transmitir conceitos musicais de uma forma fluída e leve, indo do entretenimento à catarse em questão de segundos. O fato de terem chegado ao décimo segundo registro de estúdio, Immigrance, só demonstra o quanto esse projeto deu certo.

Falei do jazz, mas limitar a banda a um gênero é um erro. As experiências sônicas que eles proporcionam suplantam as fronteiras do jazzístico e andam de mãos dadas com outros elementos, como uma ênfase rítmica maior, regionalidades e a urgência do rock. Mas no núcleo de tudo está, sim, o jazz, como um método, quase uma filosofia, e não como um estilo. Associado à liberdade musical de improvisação, de erros e de acertos, sendo que os ouvidos do receptor são os grandes ambientes de testes nos quais os músicos experimentam versões de suas ideias.

Tudo isso é capitaneado pelo baixista Michael League, um descobridor, irrequieto, que faz do SP seu oásis. League compõe tudo, produz, mixa e toca um punhado de instrumentos, sendo que o principal é o baixo elétrico. Estudou jazz na faculdade e hoje transmite o que aprendeu.

Immigrance é um álbum instrumental extremamente prolixo no que tange às ideias de elementos para os arranjos. Os enquadramentos sonoros estão sempre cheios de instrumentos concorrendo entre si e disputando corrida para ver quem chega primeiro no ouvinte. Mas os arranjos partem sempre de uma ideia: geralmente um groove do baixo dá início tema de base, sobre o qual, as melodias brilham. League utiliza seu instinto pedagógico para nos ensinar a como balancear instrumentos e formar temas intercalados, com polifonia e pequenos traços de beleza no meio de toda a balbúrdia.

A percussiva e fortemente dinâmica “Xavi” é a melhor faixa desse disco. É o momento em que a audição começa a ficar séria, e o ouvinte se pega totalmente investido nesse universo. “Bling Bling” é sorrateira e misteriosa, enquanto “Bigly Strictness” utiliza acordes tensos para conectar cada seção com a próxima. A quebrada e sincopada “Bad Kids to the Back” tem um quê de acid jazz anos 90 e muito de funk. O delay forte de “While We’re Young” acrescenta um senso de bucolismo ao disco, como se conferisse uma dimensão espacial maior que os falantes que reproduzem o som.

A mixagem, assinada por League e Nic Hard, ressalta a multiplicidade de facetas e personas que compõem o Snarky Puppy. É uma mix típica de um coletivo mesmo, modelo coração-de-mãe, no bom português. League, como um professor, nos ensina a explorar o espectro com muita classe, abusando da manipulação do panorama (lado esquerdo e direito) e do volume para encaixar essa miríade de informação em nossas mentes. Quando querem que compreendamos cada detalhe, League e Hard deixam claro, quando querem nos confundir, fazem isso muito bem também. E o grande trunfo da mix é deixar a música respirar, gerando ritmo e vitalidade com essa instrumentação excessiva e criando um senso forte de expectativa quando poucos instrumentos estão acontecendo.

Immigrance é mais um ótimo trabalho do Snarky Puppy, que se dedica a apresentar o jazz como algo interessante para audiências mais jovens também. Se comparado com outros discos, percebemos como Michael League gosta de fazer com que cada um seja uma experiência única, distinta, mesmo que parta dos mesmos princípios e das mesmas doze notas de base. O ouvinte que conseguir assimilar esse disco com mais do que apenas os dispositivos auditivos já pode buscar seu diploma de especialização em “world jazz” instrumental moderno. Ah, e não esqueça de tomar nota.    

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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