“Gold in a Brass Age” traz um David Gray inspirado, mas acomodado

David Gray – Gold in a Brass Age (2019)

Por Gabriel Sacramento

Toda vez que leio esse título do décimo primeiro disco do britânico David Gray, não consigo deixar de pensar em como ele escancara o dilema dos artistas que já estão no showbiz há décadas — a crise que atormenta o personagem do Michael Keaton no filme “Birdman”. Começaram em épocas obscuras, se esforçaram bastante, alcançaram um nível de sucesso, mas, depois, se viram esquecidos e relegados ao segundo plano com o surgimento de jovens que falam melhor a língua da modernidade. Muitas vezes, esses novos artistas não chegam nem aos pés dos gigantes do passado, mas são preferidos porque se adequam melhor ao nível de excelência do seu período. O “ouro” permanece, mas a era é do “latão”.

Gray, por exemplo, viveu isso com seu folk. Quando surgiu, em 1993, fazer folk com pequenos elementos de rock no meio não era uma coisa tão comum e popular quanto é hoje em dia. Para “piorar”, o cantor logo enveredou por uma fase mais experimental da sua carreira, em que misturou esse padrão com música eletrônica, o que lhe rendeu seu disco mais reconhecido até hoje, o ótimo White Ladder (1998), um colosso que chegou a vender mais que Coldplay, Lady Gaga e Justin Timberlake. Desde então, assistiu o interesse por sua música diminuir enquanto outras dezenas de cantautores tomavam de assalto a cena britânica. Alguns artistas muito bons, é verdade, mas que nunca chegaram ao nível de originalidade e inventividade proposto pelo David em seu auge.

Gold in a Brass Age, no entanto, é um disco que não carrega esse peso em seus ombros. Produzido por Ben DeVries e mixado por Simon Changer, esse conjunto de faixas parece indefeso e inofensivo, buscando a leveza como principal argumento e como solução para todos os problemas. O produtor consegue costurar uma instrumentação simples e cíclica, que parece um monte de samples, beats pré-fabricados e feitos por encomenda para a voz do David Gray (as baterias eletrônicas só reforçam essa sensação). Não parecem terem sido criados organicamente por músicos de uma banda mesmo — e isso não é nenhum demérito.

Por conta disso, a voz do britânico passeia por entre as seções e por entre as faixas de forma suave e fluida, garantindo um tom uniforme e coeso ao trabalho como um todo. Sua maneira de interpretar é a mesma que o cantor vem repetindo ao longo dos últimos anos: cordial, gentil, limpa e formal. Gray é um cantautor que começou bem agressivo no admirável A Century Ends (1993), mas foi se tornando mais leve à medida que a energia da juventude foi indo embora. Felizmente, ele soube transformar essa desaceleração em inspiração e buscar outras formas de injetar vitalidade em sua música.

Os melhores momentos do disco são os que o produtor foca no minimalismo e na relação entre a voz e poucos instrumentos de fundo. Isso faz com que letras simples e cotidianas, como “acorde, baby, está tarde” em “It’s Late”, soem poéticas e marcantes, sobretudo pelo grau de intimismo, um clima confessional e por um certo naturalismo, que busca demonstrar as relações como elas são, sem exageros idealistas. “Watching the Waves” também é muito beneficiada por essa estética.

Gold in a Brass Age peca somente por ser um pouco monocórdico demais e exagerar na ênfase do seu argumento central. “Hall of Mirrors” traz um dos poucos momentos em que a mixagem é diferente e que nos permite encontrar elementos instrumentais incomuns depois de cavar um pouco. No geral, o disco possui algumas ótimas canções, como as já citadas, intercaladas com outras que são só boas. Para um compositor de mão cheia, é um pouco irregular e abaixo do esperado, mas não é uma experiência ruim.  

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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