Pond ressignifica a psicodelia (de novo) em “Tasmania”

Pond – Tasmania (2019)

Por Gabriel Sacramento

A psicodelia na música é muito interessante. Afinal, com ela, a arte deixa de ser um componente passivo, a ser simplesmente assimilado pelo ouvinte, e passa a produzir efeitos e sensações ativamente nele. Um dos grandes destaques desse fenômeno musical é a possibilidade de ser emulado com diversas alternativas criativas, o que viabilizou a incorporação por distintos estilos, como rock, folk, funk, R&B, soul, entre outros. Pode ser alcançada com sons indianos, com sintetizadores, sons de objetos cotidianos, com recursos loucos de estúdio, com climas sufocantes, com guitarras cheias de efeitos, e a lista segue. 

Nos últimos anos, o termo tem sido impulsionado pela cena australiana de rock, composta por Tame Impala, Pond, Psychedelic Porn Crumpets e outros grupos. O Pond foi formado como um projeto de interseção com o Tame Impala, embora tenha visto a irmã assumir o stardom de uma maneira mais estrondosa. Formado por Nick Allbrook, Joseph Ryan, Jay Watson, James Ireland e Jamie Terry, o grupo segue como um coletivo, com membros compartilhando instrumentos e com artistas novos convidados a cada trabalho. Em Tasmania, dois dos contratados são o baterista Joey Waronker e o guitarrista Jonathan Wilson.

O grande diferencial do grupo — e de boa parte da cena australiana — é contar com os serviços de Kevin Parker. O brilhante auteur do Tame Impala começou como baterista do grupo e hoje contribui como produtor, mixer e como mentor. Em Tasmania, Parker formata o disco com algo que gosto de chamar de “jornada do ouvinte”: um estilo de sequenciamento de faixas que segue uma lógica bem definida para levar o ouvinte de um ponto A a um ponto B.

O álbum começa com uma sonoridade mais limpa, até mesmo dançante, com muita sensualidade e um clima meio lounge, que lembra o Tame Impala mais recente e também o Arctic Monkeys atual. Eles começam sóbrios, mas com o passar do tempo, tudo fica viajante e hipnótico, quando abrem para a experimentação livre e desmedida, com longas partes instrumentais encharcadas de efeitos eletrônicos e recursos sônicos grandiosos e espaciais. Parker desenvolve muito bem as seções instrumentais, de uma forma que ele adora fazer: controle rigoroso, muita repetição para dar ênfase, instrumentos se chocando caoticamente uns com os outros e uma certa solenidade e fascínio, como se as faixas esperassem ansiosamente por esses momentos.

Em “Burn Out Star”, por exemplo, temos a sensação clara de que existe mais de uma música ao longo dos oito minutos da faixa. São ideias desconexas, que se sucedem abruptamente e anunciam climas diferentes dos anteriores, quebrando o drama, a tensão e a expectativa do ouvinte. Mesmo com a banda totalmente entregue à experimentação na segunda metade, nunca perdemos o senso de controle/planejamento e a visão do produtor, transmitida a partir dos detalhes.

Essas múltiplas facetas são bem representadas pelo estilo da banda: três deles cantam e cada um contribui com que consegue fazer. Nick Allbrook, o principal compositor, consegue ser versátil o suficiente para criar pequenos universos diferentes em cada canção. Algumas melodias são cativantes e outras são simplesmente angustiantes.

Se comparado com os discos anteriores, Tasmania me parece ser o mais maluco e que menos confia nos elementos mais familiares da banda, os sintetizadores e guitarras, para dar mais espaço a outros instrumentos, como a bateria e percussão. Quando ouço The Weather (2018), por exemplo, sinto claramente o foco no poder dos teclados para camadas e texturas, e, se buscarmos os discos mais antigos, ouviremos muito mais das seis cordas. Nesse sentido, o novo disco consegue ser mais abstrato também, já que se vale mais de sons esquisitos e não-convencionais do que de uma instrumentação comum.

Mais uma vez, Parker dá um show de mixagem. É só ouvir o que ele faz em “Doctor’s In”, por exemplo, para ter certeza que sua destreza com os equipamentos é inegável e a mágica que ele consegue fazer com eles vale a audição, o dinheiro e o ingresso, se for o caso. O australiano faz com que seus efeitos soem dramáticos e poéticos, com pequenos fragmentos vanguardistas e inovadores de som.

Com suas letras típicas sempre situando o ouvinte na Austrália, seja com eventos importantes ou com menções honrosas, o Pond segue como um bom guia turístico para nos dar um gostinho do que a cidade de Perth parece ser. Mesmo não tendo o sucesso do Tame Impala, é um erro subestimar esse coletivo, pois sua força é construída pela conjunção de energias e talentos, das mais inventivas e esquisitas mentes da música australiana moderna.  

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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