Bryan Adams enfrenta crises de identidade em “Shine a Light”

Bryan Adams – Shine a Light (2019)

Por Gabriel Sacramento

Bryan Adams continua investindo em sua persona jovial. Mesmo com seus 59 anos de idade, o cantor exibe energia e vigor ao enveredar por linguagens mais roqueiras, mostrando vida como outros cantores mais antigos, como Bruce Springsteen e Rod Stewart. O décimo quarto disco do cantor chama-se Shine a Light e segue como um contraste do anterior, o bom Get Up (2015), porque tenta atualizar as referências e fazer o cantor soar interessante para o público de hoje.

O objetivo do canadense foi misturar uma persona roqueira com uma mais comercial, pop, good-vibes. Tem rock anos 80, tem country rock, tem popzão e baladinhas melosas. Para isso, contratou quatro produtores, três de rock clássico e um versado na música popular da atualidade: o lendário Bob Rock, Jim Vallance, Phil Thornalley e Johan Carlsson, respectivamente. Além disso, o próprio Bryan contribuiu com a produção.

Foto: Maurice Li

O disco acaba se perdendo um pouco no que tenta dizer em seus devaneios temporais. Os produtores acabam se atrapalhando e gerando um resultado picotado com extremos que não dialogam muito bem. Além disso, Adams transita entre referências modernas e outras mais oitentistas sem muita preocupação com coesão e com uma unidade lógica. O disco acaba parecendo mais um conjunto de faixas desconexas de diferentes fases da carreira do cantor do que um retrato do seu momento artístico atual. Uma espécie de Best of, só que sem as melhores canções. Pra variar.

Outro ponto negativo é o fato de que algumas canções — as mais pop — são fraquíssimas: formulaicas, preguiçosas, mesmo que se levem a sério, acabam sendo até risíveis. É como uma visão do pop de alguém de fora, que subestima os artistas e o público e acha que o gênero se resume a algumas fórmulas prontas (Adams não ouviu o James Morrison?). Isso fica evidente na terrível “That’s How Strong Our Love Is”, com a Jennifer Lopez, uma das coisas mais cafonas que ouvi esse ano.

Por outro lado, as duas melhores faixas do conjunto são produzidas pelo Bob Rock: “All Or Nothing” e “Driving Under The Influence of Love”. Seu trabalho é ótimo em extrair uma certa energia destemida e inconsequente, que reconstrói os anos oitenta em nossas cabeças, com as jaquetas de couro e os carros estilosos da época. Em “All or Nothing”, o riff ainda lembra o de “Highway To Hell”, riff icônico do AC/DC, com a mesma secura e simplicidade que fizeram os australianos memoráveis.

No final, Shine a Light é bem pior que Get Up e faz com que o disco de outrora seja um capítulo isolado interessante na carreira do cantor. O trabalho de som diferenciado e a agressividade que demonstrou em 2015 vão pelo ralo, quando o artista resolve trocar por uma ambição maior. Quando tenta emular outros sons, Adams acaba se perdendo e perdendo a si mesmo no processo, e o fator coesivo que falta a essas 12 faixas são justamente os seus trejeitos e maneirismos. Um disco irregular e esquecível que falha na sua premissa mais básica: exaltar o artista principal.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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