“When I Get Home”, da Solange, é um disco matemático e hipnótico

Solange – When I Get Home (2019)

Por Gabriel Sacramento

Solange Knowles pegou todo mundo de surpresa nessa primeira sexta de março. Praticamente um dia depois de ter divulgado informações acerca do seu álbum novo, a cantora liberou o resultado, fruto da parceria com artistas como Pharrell Williams, Sampha, Steve Lacy, Dev Hynes, Tyler, The Creator, Earl Sweatshirt, entre outros. Um disco incomum de 19 músicas e 39 minutos.

Assim como em seu último trabalho, o brilhante A Seat At The Table, Solange segue reimaginando o R&B, buscando no jazz contornos esquisitos e tortos para se expressar. When I Get Home é ainda mais rítmico e intrincado do que o anterior, com muito mais show-off musical. Também é possível notar que a cantora está menos preocupada com letras bem elaboradas e críticas profundas. Seu foco aqui é deixar o som rolar, como um entretenimento, mesmo que inteligente e cabeçudo do ponto de vista de arranjos e de escolhas de produção.

Assim, ela segue ostentando suas qualidades ao longo do disco. A abertura é soberba com “Things I Imagined”, na qual ela brinca com tempos complexos e uma base líquida de sintetizador. A complexidade rítmica também marca “Down With The Clique”, que deixa o ouvinte com pulga atrás da orelha, como se algo estivesse muito errado no ar. Ela segue explorando o tempo em outras canções, sempre com poucos elementos que parecem guiados por metrônomos diferentes.

No resto do disco, Solange também experimenta com mudanças abruptas nos arranjos, como em “My Skin My Logo”. Mesmo com essa disposição, a cantora consegue ser extremamente concisa em suas ideias, com canções curtas e diretas. Isso nos leva para a carta com a qual ela brinca mais: a repetição. A americana explora a repetição como uma forma de ênfase, mas também como uma forma de criar lentamente uma atmosfera convincente, envolvente e hipnótica, convidando o ouvinte para pequenas viagens e devaneios a cada recorrência de um verso.

O exercício da repetição acrescenta uma grande dimensão experimental ao conjunto e é o que destaca esse disco de uma audição comum. Afinal, é como se estivéssemos presos em um loop, no momento de uma faixa, com o disco arranhado, travado, ou com algum problema no player. E isso faz com que, aos poucos, nos tornemos íntimos dessas composições. 

As presenças de Steve Lacy e Tyler, The Creator pesam bastante na criação de bases para o disco: etéreas, climáticas, cheias de teclados fluidos e confortáveis, que fazem a expressão “cama harmônica” ter pleno sentido. Assim como nos outros projetos dos dois, a carreira solo do Tyler e o The Internet, o interesse é pelo encontro do jazz com o R&B e hip-hop: o moderno e o clássico, o popular e o desconhecido. Vale destacar também o nome do arroz de festa Pharrell Williams, que consegue contribuir com as performances vocais da Solange nas faixas em que participa, extraindo mais ritmo e mais agilidade.

Sem grandes hits, nem o benefício da expectativa da espera, o novo disco da Solange impressiona por demonstrar a liberdade que a cantora tem de fazer o que quer no mercado fonográfico. When I Get Home soa bem como um disco de transição, mas não sabemos para o quê exatamente.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

Comentários

    Anônimo

    (7 de março de 2019 - 09:58)

    Ridículo

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