“Wasteland, Baby”: a evolução segura de Hozier

Hozier – Wasteland, Baby (2019)

Por Gabriel Sacramento

Uma das grandes revelações de 2014 e queridinho das premiações de música, Hozier está de volta com o segundo disco da carreira, Wasteland, Baby. Como todo artista que começa muito bem, o irlandês enfrenta os demônios do famigerado teste do segundo disco, tentando dizer algo mais e, ao mesmo tempo, se manter fiel ao que fez há cinco anos. Seu estilo mistura folk com rock e um quê de soul e gospel, crossover digno de quem fez graduação e especialização na universidade Van Morrison de música. No meio de tudo isso, está sua ótima e imponente voz, que ajuda o cantor a alçar vôos incrivelmente altos com sua música, transcendendo as barreiras do desinteresse e do tédio.

Rob Kirwan foi escalado de novo como produtor, mas dessa vez, trabalha ao lado de Markus Dravs, renomado diretor de discos de artistas do naipe de Mumford and Sons, Coldplay, Arcade Fire e Kings of Leon. Wasteland é um disco longo, de 14 músicas e quase uma hora de duração, o que permite ao cantor experimentar as diferentes linguagens que fazem parte do seu cardápio musical.

Primeiramente, Hozier sabe bem como começar um disco. Se em 2014, o primeiro contato que o mundo teve com o jovem foi com a adorada “Take Me To Church”, em 2019, na sua versão 2.0, ele nos traz “Nina Cried Power”, uma canção fortíssima que homenageia diversos artistas icônicos que mudaram a música, aqueles que devemos mostrar quando ETs desembarcarem aqui pedindo que os levemos aos nossos líderes: James Brown, Nina Simone, Marvin Gaye, B.B.King, Curtis Mayfield, Woody Guthrie, Bob Dylan, John Lennon e outros. Para auxiliá-lo nos vocais, uma das homenageadas, a própria Mavis Staples. As vozes dos dois se unem tão lindamente, em um perfeito encontro de timbres e uma convolução de intensidade e paixão pela arte. 

As outras treze canções são marcantes e garantem o interesse contínuo do ouvinte. O cantautor e seus produtores exploram bastante a sua voz e arranjos tensos que insistem em não resolver, em não explodir, mesmo que contenham uma certa energia acumulada. Mas também há muito folk intimista calcado no violão. Se tivesse que escolher entre as altas temperaturas de um Kings of Leon ou o intimismo de um Sufjan Stevens, Hozier certamente iria preferir o que está entre esses extremos.

Outro fator decisivo para causar uma boa impressão é a energia expansiva das faixas, reforçada pela reverberação gigante e levemente onírica (diferente da secura do primeiro disco) e pelos vocais de fundo onipresentes. Mesmo sem guitarras flamejantes e sem muito volume, Hozier soa enorme com sonoridade e potência para preencher um estádio. Se essa última frase não faz sentido, talvez seja o efeito do disco sobre a minha cabeça mesmo.

Quando surgiu em 2014, o cantor ficou bastante conhecido pelas referências religiosas em suas letras. Mesmo não sendo um religioso, aquele seu estilo de escrita chamou a atenção de muita gente. Wasteland não segue isso a rigor, embora uma ou outra referência seja encontrada no meio do todo. No geral, as letras perdem em comparação com as analogias e os subtextos do autointitulado.

Wasteland, Baby não é melhor que o primeiro disco do Hozier, mas passa com méritos no teste do segundo trabalho, já que apresenta energia e combustível necessários para uma longa jornada. Mesmo não fazendo algo exatamente original, o cantor ainda se destaca pela sua privilegiada voz e por saber muito bem como utilizá-la. Diferentemente do James Bay, que decidiu mudar tudo no segundo álbum, o irlandês mostra que a vibe do começo ainda continue lhe rendendo boas experiências e boas canções.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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