A nova viagem interplanetária do The Claypool Lennon Delirium

The Claypool Lennon Delirium – South of Reality (2019)

Por Gabriel Sacramento

Les Claypool. Sean Ono Lennon. Dois cantores, instrumentistas e produtores. Uma mistura inusitada que rende uma forma de som maluca e alucinante, como uma boa viagem a um planeta desconhecido, governado por algum monstro que parece um enorme inseto. “Delírio” é uma ótima palavra para descrever a parceria desses dois: um dos melhores baixistas do planeta, excêntrico, louco, mas também extremamente técnico e peculiar; o outro, um talentoso guitarrista e vocalista que possui o suficiente para se descolar da imagem de filho-de-um-beatle. South of Reality é o segundo fruto dessa combinação. Produzido novamente pelos dois e mixado pelo Claypool.

O disco soa incrivelmente cru, mal-passado, mal-cozido, sem tempero como algo que desce difícil, mas difere um pouco do som garageiro dos anos 60, período no qual estão bandas com as quais eles frequentemente são comparados. Isso porque, nessa época, a garageria das bandas era algo mais espontâneo, mais livre. Mesmo que os Beatles, por exemplo, passassem bastante tempo em estúdio experimentando, os recursos eram limitados e, por isso, os grupos não podiam planejar muito. O TCLD soa calculado, frio, como um fruto de horas em estúdio trabalhando timbres, combinações, efeitos e climas e aproveitando tudo o que é possível pela tecnologia que nós temos. 

O que mais gosto sobre South of Reality é que a produção dos dois equilibra bem os dois talentos e entrega um resultado que nos diz muito acerca de ambos. O baixo de Les Claypool é naquele estilão sensacional que estamos acostumados a ouvir, com linhas criativas, molecas, brincando de esconde-esconde pra lá e pra cá, cheias de energia. No entanto, também temos o elemento Lennon bem claro na mistura, com suas guitarras cheias de filtros viajantes e solos (muito) bem executados, sem contar a sua voz conduzindo tudo. Nos momentos em que a produção quer enfatizar Lennon, Claypool “se comporta” mais com seu baixo. E vice-versa.

Como um bom disco psicodélico, o objetivo é chocar o ouvinte. E eles consegue fazer isso com estruturas longas e cheias de seções que não necessariamente se conectam entre si, indo de sons mais atmosféricos a momentos mais roqueiros e outros mais folk. O rock que eles fazem é simples, sem muitos overdubs, sem peso e volume, enquanto o folk é esquisito com melodias estrambóticas e até cafonas. Tudo isso impacta bem o ouvinte.

As canções são deliciosamente livres, com belas melodias e momentos instrumentais brilhantes, entrosados com muita ênfase e sem nenhuma pressa na alocação das ideias. Se pudesse destacar uma, seria “Easily Charmed By Fools”, que soa como algo que o Melvins faria.

O fator mais surpreendente desse disco é o quanto soa parecido com os Beatles. Mesmo indo em uma direção mais noventista, não consigo evitar a comparação em canções como “Blood and Rockets”. Na faixa, em um momento, estamos em 2019 ouvindo Sean na guitarra e voz, Claypool no baixo e Paulo Galdi na bateria, e, num piscar de olhos, passamos a ouvir McCartney no baixo, John na guitarra e voz e o próprio Ringo na bateria. É como se a banda nos levasse em uma viagem temporal para os 60s sem que percebêssemos. Uma experiência quase espiritual. Arrisco dizer que nada feito depois dos Beatles soa tão Beatles.

Evidentemente, essa comparação não fica de pé por muito tempo: o foco do disco é em uma forma única de som, que não depende do que já foi feito e olha para a frente. South of Reality segue assinalando que a parceria entre esses dois ótimos músicos deu muito certo e proporciona experiências difíceis, mas recompensadoras. O gosto é estranho, mas ele fica na boca por muito tempo.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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