“This Land”, do Gary Clark Jr., tem bons momentos, mas é confuso

Gary Clark Jr. – This Land (2019)

Por Gabriel Sacramento

Eis que a carreira do talentoso Gary Clark Jr chega ao seu terceiro capítulo. Blak and Blu (2012) mostrou para todo mundo do que o texano era capaz e The Story Of Sonny Boy Slim (2015) mostrou que ele domina muito bem o blues, soul, R&B e que também manja de intersecções com o mundo eletrônico e com o pop de hoje. This Land segue a parceria com Jacob Sciba, produtor do anterior, e intenciona mostrar mais facetas do Gary.

É normal que muita gente conheça o cantor pelo seu lado blues rock, dos solos com efeitos e das participações em festivais famosos como o Crossroads — no qual, recebeu um aceno acompanhado de um sorriso de ninguém menos que B.B.King e tocou ao lado de ícones como Buddy Guy, Steve Winwood, Jeff Beck, Eric Clapton e o contemporâneo John Mayer. Contudo, ele é muito mais que um bluesman moderno.

Foto: Joey Martinez

This Land é composto por uma miríade de informações sônicas, uma verdadeira overdose de sensações, disposta em 17 faixas. Sciba ajuda o cantor com sua abordagem versátil e aprofunda as várias tendências que o Gary deseja apresentar com muito afinco, sempre cuidando para que as guitarras estejam em todo lugar e para fazer com que ele soe interessante para o jovem ouvinte de 19 anos que vai ouvir uma ou outra música separada no seu player do Spotify.

Vamos às músicas. A faixa-título é um manifesto brilhante do Gary contra o racismo e contra a percepção de que os afro americanos não são bem-vindos nos Estados Unidos, terra que eles ajudaram a construir. “Essa terra é minha”, canta o texano, com muita certeza e segurança. Para emoldurar a crítica, ele alude a eletronicidades psicodélicas e o estilo de blues que já está acostumado: uma certa influência do reggae, uma linha tensa de baixo e solos e licks de guitarra cortando as frases.

O resto do álbum, no entanto, é uma bagunça em termos de estilo e humores: Clark brinca com diversos gêneros e referências sem compromisso contratual. Tem soul (“When I’m Gone”), tem pop fajuto (“Feelin Like a Million”), blues rock tenso afogado em guitarras (“Low Down Rolling Stone”) e pop fim-de-tarde (“The Guitar Man”). Mas, calma, não acabou: ele ainda brinca com uma espécie de proto-punk em “Gotta Get Into Something” e com a expectativa de quem busca um bluesman em “Dirty Dishes Blues” e “The Governor”.

Ou seja, seguindo o vício dos álbuns do John Mayer, o texano explora de tudo e não define exatamente qual o assunto principal do disco (tanto em termos líricos quanto em termos musicais). Isso faz com que ele apresente boas ideias, mas não as desenvolva, pois sempre parte urgentemente para apresentar outra. As canções são boas, as performances são competentes, mas os direcionamentos são muito diferentes e não dialogam bem entre si. Quando tenta misturar rock garageiro com soul, por exemplo, o cantor não consegue soar tão equilibrado e honesto como o Benjamin Booker.

Sua abordagem do blues ainda é especial: consegue focar na tensão que o gênero proporciona, sem tanto foco no aspecto técnico, mesmo que ele consiga entregar solos competentes, como em “Pearl Cadillac”. Sua guitarra quase sempre surge como quem não foi convidada para a festa, sem muito destaque, concorrendo e disputando espaço com a voz e outros instrumentos. A mixagem de Sciba também deixa claro o ponto de vista sobre o blues, com uma abordagem muito suja, lamacenta, diferente do som mais brilhoso e claro do Please Don’t Be Dead (2018), do Fantastic Negrito, por exemplo. Aliás, enquanto o FN celebra o blues de dentro para fora, Gary pega emprestado a essência do estilo, mas se recusa a obedecer às convenções.

Sciba também trata muito bem os instrumentos e timbres, reconstruindo com cuidado a imagem sonora daqueles estilos antigos. Ou seja, não é uma mix vanguardista. E se o set-list soa muito picotado, o trabalho de som garante uma certa coesão interessante ao investir nas mesmas técnicas e no mesmo feel.

O terceiro trabalho de Gary Clark Jr. é impressionante pela quantidade de informação que ele consegue alocar, com proficiência em todas elas, mas é cansativo e confuso exatamente pelo mesmo motivo. A conclusão que fica sobre sua carreira é que: ela não possui o quê pop necessário para impulsionar o cantor para além do que está acostumado, nem o purismo blues que muitos fãs do estilo esperam, e isso continua fazendo dele um artista interessantíssimo de acompanhar.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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