“Distance Over Time” é o melhor do Dream Theater em anos

Dream Theater – Distance Over Time (2019)

Por Gabriel Sacramento

Depois da saída de Mike Portnoy em 2010, o Dream Theater seguiu cambaleando e caindo, se arrastando para tentar encontrar o caminho. Black Clouds and Silver Linings (2009), o derradeiro álbum com o baterista fundador, nos deu alguns hits como “A Rite of Passage”, e nenhum disco posterior chegou perto do que eles fizeram nesse disco ou em anteriores. Ah, vale destacar: não se trata de ser “viúva” do Portnoy, mas de reconhecer que sua presença na banda era fundamental para o som que a banda construiu como deles, principalmente desde Scenes From a Memory (1999), quando ele e Petrucci começaram a produzir todos os álbuns e controlar as decisões. (Aliás, esse disco completa vinte anos em 2019 e vai ganhar turnê comemorativa com os caras tocando tudo na íntegra.)

Portnoy era extremamente controlador: tocava bateria, cantava, compunha, direcionava o processo criativo e até mesmo gravava vídeos de making of. Sua saída foi sentida em discos como A Dramatic Turn of Events (2011) e Dream Theater (2013). Mas parece que a banda finalmente achou um norte criativo e deu um passo de volta aos tempos de glória.

O primeiro grande fator diferencial é que eles escreveram o álbum em apenas 18 dias, diferente dos processos longos de meses dos outros trabalhos. Isso já dá uma noção do nível de urgência que marca as faixas. Além disso, eles tentaram um estúdio novo dessa vez, o Yonderbarn, em Nova Iorque. A produção é do Petrucci sozinho mesmo, como os anteriores desde a saída do companheiro de produção, e a mixagem é assinada por Ben Grosse, engenheiro que trabalhou em vários discos do Red, inclusive o ótimo End of Silence (2006).

Petrucci veste as canções com uma roupagem seca e direta, para que álbum seja totalmente diferente do que foi o anterior, o grandioso e ambicioso The Astonishing (2016). É uma abordagem que explora elementos mais sombrios e melancólicos também, que lembram um pouco a atmosfera obscura de Train of Thought (2003). O grande destaque de seu trabalho foi ter focado na avalanche criada por riffs depois de riffs, ao invés de concentrar em melodias, letras ou no formato canção. 

Foto: Mark Maryanovich

O disco todo segue a ideia do “progressivo” de forma bem literal. As estruturas são fluídas e dinâmicas, com seções que desembocam facilmente em outras e uma certa liberdade criativa que conecta elementos e ideias com menos rigor, como em uma boa jam. Cada riff define um novo direcionamento para o arranjo, como se existissem diversos universos em uma única faixa. À medida que as canções progridem, o interesse do ouvinte também aumenta. “Untethered Angel” abre o disco trazendo o espírito que acompanha o resto das faixas: riffs secos em staccato, acompanhados pelo teclado climático do Rudess, efeitos nos vocais, novas (e empolgantes) informações surgindo a todo momento e um interlúdio longo com solos de teclado e guitarra.

Outro fator que merece menção é a forma como eles buscam mudar as estratégias sonoras. “S2N” começa com um timbre mais agudo do baixo de John Myung e segue desafiando convenções no seu desenrolar. “Paralyzed” é marcada por uma guitarra seca, crua, abafada, que não parece muito com o estilo do Petrucci. O riff de “Room 137”, em sintonia com os vocais do LaBrie, também me soa bem diferente. Isso sem contar a ótima “Viper King”, a melhor e mais inusitada música do álbum: começa com um riff hard rock quebrado meio Jon Lord, do Deep Purple, mas quando a guitarra entra, soa como algo executado pelo Eddie Van Halen (aliás, o Petrucci usa uns harmônicos bem ao estilo dele). A estrutura, por sua vez, é aquela clássica verso-riff-verso-riff, que foi eternizada pelo Led Zeppelin em “Black Dog”.

Nos poucos parágrafos que me restam, quero destacar o trabalho de Mike Mangini, em sua melhor performance no kit do DT desde quando assumiu. Suas linhas são proativas, criativas e levam as faixas para novos rumos, reimaginando os riffs. Sua abordagem de variar as levadas em cada compasso, como na introdução de “Fall Into The Light”, lembra muito o que o Portnoy adorava fazer. O baterista está sempre propondo ideias interessantes que exploram todo o seu kit, destacam o instrumento e bagunçam a noção de ritmo do ouvinte, como uma boa bateria progressiva deve fazer. Aliás, ressalto também o bom trabalho de mixagem do Ben Grosse que trouxe a bateria para a frente, com mais brilho para os pratos, amplitude para os tambores e um ótimo senso de dinâmica.

Distance Over Time soa como se Petrucci tivesse descoberto os discos do Animal As Leaders e do Periphery pouco antes da gravação e decidido começar a brincar com o tipo de metal dessa galera. Depois, o guitarrista só trabalhou para extrair um pouco das loucuras da mente de cada membro e conseguiu, no final, um verdadeiro esforço de grupo e o melhor disco da banda em anos.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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