O festival de referências da BaianaSystem

BaianaSystem – O Futuro Não Demora (2019)

Por Gabriel Sacramento

Quem já esteve na Bahia ou mora por aqui sabe que, nessa região, estamos o tempo todo expostos a uma miríade de referências culturais, e é difícil, muitas vezes, filtrar um ou outro elemento ou destacar um no meio da multidão. Só na música, temos samba-reggae, pagode, axé, forró, MPB, mas também há espaço para estilos pouco óbvios como rock e hip-hop. E, em terras baianas, poucas bandas conseguem transmitir essa multiculturalidade em termos musicais de forma tão clara e convincente quanto a BaianaSystem — grupo composto por Russo Passapusso, Roberto Barreto e SekoBass —, que chega ao seu terceiro esforço de estúdio, chamado O Futuro Não Demora.

O álbum conta com a participação de Bnegão, Vandal, Curumin, a orquestra afrosinfônica, o mestre Lourimbau, entre outros nomes. Produzido novamente por Daniel Ganjaman, assim como o anterior Duas Cidades (2016), não traz mudanças profundas no DNA da banda que já tinha sido apresentado nos dois primeiros álbuns. No entanto, o grande destaque do trabalho do produtor é o fato de que ele ajudou a amplificar algumas características e a posicionar melhor os elementos em locais estratégicos nos arranjos, sem exageros e com sofisticação.

Um exemplo disso é o uso da guitarra baiana (tocada pelo Barreto), que sempre foi uma parte marcante do som da banda e é um instrumento consagrado na música da região, graças a Dodô & Osmar. Aqui, ela permanece pujante e ensolarada, com um timbre limpo que permite a identificação de todas as notas, recheando as faixas com boas ideias de melodias, seja acompanhando os vocais, seja impondo as próprias interpretações. Outro exemplo é o uso das percussões, que surgem para conferir ritmo e corpo aos arranjos, mas não são usados de maneira desgastante. Quase sempre dialogam com boas ideias de outros elementos, e a mixagem confere uma boa noção de espacialidade aos instrumentos, o que ajuda a definir melhor e criar um senso de leveza.

Para reforçar o ritmo, a banda também abusa de riffs simples em staccato (que lembram muito a própria linguagem do reggae) com os instrumentos em uníssono. No refrão de “Bola de Cristal”, o riff instrumental coopera bem com a melodia vocal, garantindo que o ouvinte não esqueça o que está ouvindo. Já para trabalhar o clima, Ganjaman faz uso de efeitos espertos e bem editados, como no interlúdio da ótima “Navio”, que chega a flertar com o rock psicodélico.

É possível notar a influência do Ganjaman na forma como a banda desenvolve algumas estruturas. O produtor é famoso por discos de nomes do hip-hop, como Sabotage, Rael e Criolo. E em algumas faixas, é perceptível uma lógica cumulativa nos arranjos, que se abstêm de refrãos e de momentos estratégicos de foco enquanto abusa de bordões, como acontece no rap. É como se as faixas fossem ganhando cores a cada seção, e, com essa lógica, a banda aproveita para alocar bem todas as referências e influências estilísticas que guiaram o processo criativo.

Outro destaque da produção é a ostentação o que eles conseguem fazer com faixas de cerca de 1 minuto e meio, como “Arapuca”. Essas canções passam a mensagem necessária, sem exagero de ideias, mas ao tempo com bastante informação preciosa. É um trabalho impressionante pela concisão.

Nas letras, a banda contextualiza o ouvinte acerca de questões importantes como o racismo e os meandros sócio-políticos do Brasil atual, mas sem soar panfletária, nem explícita demais. É um projeto que não subestima o leitor e deixa a interpretação de muitas frases e bordões para ele. Ademais, o disco também explora uma linguagem mais filosófica e instiga reflexões ricas sobre a vida, a espiritualidade, o nascimento e a evolução da espécie humana. 

O Futuro Não Demora é um disco dançante, forte, poético, bem estruturado e dinâmico, que nunca perde o ouvinte. É o melhor disco do grupo até então, com a expansão das referências já utilizadas e a adição sutil e inteligente de algumas novas, sob um grau absurdo de sofistação e de cuidado com as sensações que elas geram. Um disco inspirador.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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