Emarosa assume seu lado popzão e sai para o abraço

Emarosa – Peach Club (2019)

Por Gabriel Sacramento

Peach Club é o fim de uma trilogia fundamental para o Emarosa, que começou com o bom Versus (2014) e seguiu com o fantástico 131 (2016). Essa fase marca a redefinição da banda de Kentucky depois da intensa troca de membros. O guitarrista ER White é o único que está no barco desde a fundação, e a entrada de Bradley Walden (vocal) foi crucial para essa guinada de um som post-hardcore para um som tipicamente pop. O novo disco é o momento em que eles gritam ao mundo que estão confortáveis com o som bem comercial que estão fazendo, apesar de inevitáveis comparações com outras bandas como Coldplay e Imagine Dragons.

As entrevistas deixam claro que a fase mais pesada acabou. E Peach Club deixa evidente que as guitarras agressivas e os andamentos mais diretos ficaram no ótimo 131. Como já é óbvio nesse ponto, não há nada de errado em tentar soar pop, principalmente porque diversas bandas de rock moderno estão surfando nessa onda recentemente. O que vende o álbum é a forma como isso é feito.

Produzido por Courtney Ballard (Escape The Fate, 5 Seconds of Summer, Jessie J), o disco é direto no que tem a dizer e assume bem os riscos de uma abordagem pop padrão, isto é, dançante e focada nos vocais. Ballard garante que a instrumentação sempre ceda bastante espaço para Walden com suas melodias ganchudas, focando na base como um mecanismo para criar energia e movimentação rítmica ou para criar uma atmosfera favorável. Um exemplo disso é “So Bad”, que tem alguns timbres que parecem terem sido emprestados do disco recente da Mahmundi, com um groove dançante no refrão e melodias acessíveis.

Contudo, o grande problema do disco é que ele é muito irregular. Por exemplo, o começo é empolgante com “Givin’ Up”, uma faixa que representa bastante essa nova fase, com empolgação da banda e vontade de inovar: um baixo quebrado, groove fundamental na cozinha, guitarras em stacatto e até intervenções de metais. Mas o fechamento é “Wait, Stay”, uma faixa terrivelmente preguiçosa, com uma instrumentação praticamente desnecessária e que peca pela falta de dinâmica. Se o ouvinte encarar o álbum como uma jornada, é visível que a empolgação com que eles começam se esvai em algum momento e se torna mera burocracia.

“Don’t Cry” é basicamente o Imagine Dragons melhorado, mas funciona como uma faixa mais sensível. “Help You Out” me lembrou alguns bons momentos de 131, principalmente com seu ótimo refrão. Já “Get Back Up” é muito genérica e incomoda profundamente o ouvinte.

Quando Ballard concentra no ritmo e consegue um entrosamento interessante da banda, o disco empolga, mas quando parte para o desenvolvimento de outras características, perde força. Em alguns momentos, fica a sensação de que a autonomia do vocalista é tão grande que parece que estamos ouvindo um álbum solo (“xo” e “Comfortable”).

Em alguns pontos, Peach Club dialoga bem com a versão anterior do Emarosa, e em muitos pontos, não. Um dos elos quebrados é o que tange as letras. Eles estão bem mais positivas e menos sombrias que as de 131, que foram um dos destaques daquele álbum. Isso casa bem com a proposta mais popular e acessível e com a necessidade de motivação da própria banda diante desse novo momento.

Peach Club é o final da trilogia de álbuns que marcam Bradley Walden nos vocais da banda. Mas é também o pior álbum da fase, pois não sabe bem o que quer e como quer fazer essa transição do que eles faziam antes para o pop comum. A falta de um bom direcionamento pesa na qualidade do trabalho e faz o disco parecer uma mera aventura em um mundo novo, sem bússola, sem guia turístico, sem a devida coesão e cuidado com o álbum como um todo.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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