“thank u, next”, da Ariana Grande, era realmente necessário?

Ariana Grande – thank u, next (2019)

Por Gabriel Sacramento

Mais ou menos dois meses depois do lançamento de sweetener no ano passado, circulavam rumores de que Ariana Grande já estava escrevendo um novo álbum. No final de 2018, houve uma notícia que já estava pronto, mas o selo não iria lançar. Pois bem, seis meses depois, thank u, next chega ao mundo, depois do alarde que já tinha sido causado por conta do single que dá nome ao álbum.

Elogiei bastante sweetener, que para mim foi um dos destaques do mês de agosto e da segunda metade de 2018. O álbum trazia um espírito diferente, mais maduro e menos apressado que os trabalhos anteriores da cantora, por isso, representou um grande passo em sua carreira. Outro destaque daquele disco foi o fato de que Pharrell Williams, o novo dono do grammy de produção do ano, foi cotado para produzir e acabou assinando diversas faixas sozinho — o que para um disco pop é algo bem incomum.

thank u, next traz uma série de produtores, inclusive alguns que trabalharam no anterior, como Max Martin e Tommy Brown. A própria Ariana Grande assina também. Mas a falta de Pharrell Williams pesa absurdamente no resultado. No disco de 2018, Williams conseguiu uma autonomia incrível em várias faixas, influenciando Ariana em diversos aspectos: nas sacadas vocais, em interpretações mais rítmicas, bases mais criativas e orgânicas e em melodias mais elaboradas. O novo álbum tenta imitar isso, buscando o anterior como um norte, mas falha miseravelmente. Tudo soa como uma tentativa dos produtores de criar uma continuação natural do que foi sweetener, mas esse disco consegue ser tudo, menos natural.

Um primeiro ponto a se destacar são as interpretações desinteressadas e artificiais da Ariana. Ela volta a soar um pouco adolescente e a se basear em clichês estilísticos do pop feminino que já ouvimos por aí centenas de vezes. Em canções como “NASA”, isso fica bem evidente, com um refrão que combina uma melodia insípida e uma interpretação apática. “break up with your girlfriend, i’m bored” também joga isso na cara do ouvinte: é tudo muito calculado minimamente, sem riscos, sem espontaneidade e sem vida.

Outro fator negativo são as bases harmônicas, que eram tão interessantes há seis meses. Aqui, elas perderam todo seu brilho harmônico e um certo senso de inventividade, que foi muito influenciado pelo fato do Pharrell comandar boa parte do álbum. Soam burocráticas, vazias e não cooperam com as canções, sendo somente muletas para os vocais. Isso unido com as melodias dispensáveis faz com que o álbum seja facilmente esquecível.

Acredito que thank u, next foi duramente prejudicado pela pressa da cantora em liberá-lo. Não houve um tempo para amadurecer o trabalho, o que é essencial em todo projeto artístico. Tampouco parece ter havido algum conceito, necessidade ou motivação especial para que o disco sequer existisse. Parece mais um lançamento que serve para cumprir a rotina e até mesmo um conjunto de sobras do disco anterior. Ainda tenho fé na carreira e no potencial de Ariana, mas esse disco representa um forte obstáculo.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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