MONO e a profecia do fim do mundo em “Nowhere Now Here”

MONO – Nowhere Now Here (2019)

Por Gabriel Sacramento

Na crítica que escrevi ano passado para o disco de estreia do The Nude Party, eu comecei o texto discorrendo sobre como a música serve de megafone para humores e climas e como é possível, com muita facilidade, expressar isso por meio de escolhas sonoras. Nowhere Now Here, novo disco do grupo instrumental MONO, me deixa maravilhado com isso mais uma vez. Se estiver procurando uma trilha para o fim do mundo, sintonize no novo disco do MONO. Eles sabem bem o que dizer sem utilizar letras para isso.

O grupo japonês chega ao décimo disco da carreira. Eles praticamente se tornaram especialistas em uma espécie de rock sombrio, com ares de shoegaze, que mantém laços profundos com uma veia orquestral solene. No meio da carreira, estabeleceram uma parceria com ninguém menos que Steve Albini, que recuperaram para esse novo trabalho. Albini, que apareceu por aqui recentemente em discos do Ty Segall e do The Breeders, empresta suas habilidades para tornar o disco dos japoneses ainda mais original e pungente.

A banda é formada por Takaakira ‘Taka’ Goto na guitarra, Tamaki no baixo/piano, Yoda na outra guitarra e Dahm, bateria. O grupo mantém uma força consistente e são apoiados frequentemente por uma quantidade absurda de overdubs e por cordas. Em termos de mixagem, Albini é conhecido por saber captar ruídos como poucos e por seu trabalho extenso com bandas de rock underground nos anos 90. No entanto, o destaque de seu trabalho nesse disco é justamente o oposto: como ele capta instrumentos limpos, separados, com uma forte sensação de isolamento, solidão e melancolia. Os timbres falam bastante — bem mais do que letras falariam, talvez.

A produção sabe construir climas muito bem, com desenvolvimento lentos e vagarosos, que seguem uma lógica cumulativa de arranjos, ou seja, cada seção acrescenta algo à anterior e dá mais contorno ao tema principal. No entanto, a produção também sabe deixar as músicas respirarem, com muito foco nos dedilhados isolados de guitarra e na interação entre melodias concorrentes. Outra estratégia que utilizam bastante é uma que lembra a banda Red: mudanças abruptas na dinâmica da faixa, seja de algo mais leve para uma seção mais pesada, como o contrário também.

A banda também sabe muito bem dinamizar a abordagem, o que é necessário, já que o som é bastante hermético. Em algumas faixas, eles começam lentos e tristes e resolvem de forma catártica, com massa de reverb, ruídos e outros efeitos no caldeirão; já em outras, eles simplesmente mantém uma dinâmica monocórdica, que não sobe e frustra a expectativa do ouvinte. Sabem ser prolixos, como nos dez minutos da faixa-título, e super concisos no que têm a dizer, como em “Funeral Song”.

Mesmo com as boas escolhas da produção para combater a mesmice, o disco acaba caindo um pouco nisso e sendo exaustivo, principalmente por conta da sua duração extensa. É uma hora de uma música exigente e difícil, com um clima fortemente enfatizado, que não dá trégua. Por isso, alguns ouvintes vão ficar naturalmente incomodados. Para evitar isso, eles poderiam ter focados no formato de poucas canções dos últimos álbuns.  

Vale a pena destacar as performances: as guitarras de Taka e Yoda constroem a noção melódica e são os principais atores do disco, dando a voz para o viés melancólico; mas o grande destaque vai para o baterista Dahm. Suas linhas sempre surgem cortando o clima, se contraponto bem ao que as guitarras ditam e a toda massa de cordas que preenchem os céus do disco. Suas baquetas acrescentam movimento e energia a passagens quase mórbidas e arrastadas, de uma forma brilhante. No entanto, a bateria também surge com a função de sujar o espectro e gerar confusão sonora, o que o Dahm também faz muito bem.

Se o fim do mundo tivesse uma playlist, seria Nowhere Now Here. O disco segue do começo ao fim com um tom triste, como que profético, em um tom de mau presságio, anunciando desfechos e acontecimentos ruins. Ou seriam bons? Enfim, um bom disco para ouvir e refletir.

 

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.