Sharon Van Etten experimenta com propriedade em novo disco

Sharon Van Etten – Remind Me Tomorrow (2019)

Por Gabriel Sacramento

O termo “experimental” está virando um grande clichê de sentido geral no meio do jornalismo musical. Isso ocorre principalmente porque o termo tem sido subjugado à total subjetividade: se um artista utiliza leves elementos diferentes em seu disco, ensaia uma mudança para uma nova direção, mesmo que não o faça de forma concreta, muitos críticos não hesitam em catalogar isso como “experimental”. Enquanto o termo é usado de forma excessiva para denotar pequenas e inofensivas mudanças, a descrição dos artistas e bandas que realmente pensam fora da caixa (outro clichê) perde seu real impacto. Dito tudo isso, tenho que me render ao clichê para analisar esse novo disco da Sharon Van Etten, Remind Me Tomorrow, porque ele é um bom estudo do termo em sua forma semântica mais pura.

Mas, primeiro, um pouco de contexto: Sharon Van Etten é uma cantora americana que construiu sua carreira explorando a linguagem do folk, com violões, pianos e baladas reflexivas. Suas experiências convergiram em um ápice no ótimo e intenso Are We There, de 2014. Desde então, a cantora tem se dedicado à carreira de atriz — apareceu em The OA, da Netflix, e em Twin Peaks, do David Lynch. Também se dedicou à sua filhinha, que recentemente veio ao mundo. Tudo isso impactou a visão de música da Sharon e impulsionou seu novo direcionamento neste novo trabalho. Para a produção e mixagem, contratou John Congleton, que trabalhou com o Miles Kane no ótimo Coup de Grace (2018) e em bons discos do Baroness e St. Vincent.

Congleton faz um trabalho excepcional — mais um — ao levar a cantora para uma zona de risco, explorando eletronicidades intrusivas, psicodélicas e desconfortáveis e enfatizando o contraste entre esses elementos e a voz principal. Ao mesmo tempo, a tensão das faixas é bem trabalhada, construída com todo cuidado. Se em discos anteriores, Van Etten transmitia a impressão de que deixava evidente o que sentia, de forma explicitamente sentimental, Remind se destaca por apresentar a cantora de uma forma mais introvertida e implícita, apresentando contornos inusitados e revelando emoções de formas pouco óbvias. O trabalho de mixagem do John é sensacional também, já que enquadra ruídos e elementos eletrônicos de maneira proeminente, a ponto de causar confusão, mas não os deixa com muito volume. A ideia foi fazer com que eles soassem sorrateiros, como se estivessem nas bordas dos arranjos.

“I Told You Everything” pode enganar o ouvinte em um primeiro momento, mas com o surgimento de um ruído de fundo, percebemos para onde a cantora está rumando. Destaque para a performance lenta e controlada de Stella Mozgawa na bateria, mantendo a tensão de pé. A parte mais marcante de “Memorial Day” não tem nem letra: é só a Sharon com uma voz aveludada cantando algumas notas em meio a efeitos viajantes. “Seventeen” e “No One’s Easy To Love” têm os melhores refrãos do disco, e a produção sabe bem disso, já que constrói muito bem o caminho para que as faixas cheguem aos seus ápices.

Em “Seventeen”, Sharon demonstra a melhor performance vocal do disco: contrita, emocional, frágil, na medida certa para gerar empatia no ouvinte. No disco todo, e especialmente nessa faixa, sua voz soa como se ela fosse mais jovem, imatura, inocente e sonhadora, o que casa com o lirismo romântico e suas escolhas de temas. Suas interpretações acrescentam um forte ar nostálgico ao álbum, mesmo que esse não seja o foco. (Aliás, o vídeo e a letra de “Seventeen” deixam claro essa veia nostálgica tangencial.)

Se em Coup de Grace, Congleton explorou a maturidade no estilo do cantor, Remind parece ter sido o completo oposto. Além disso, John consegue deixar a sua marca no disco — de forma saudável, elevando as canções —, o que é fácil perceber em uma comparação direta com os outros discos da cantora.

Remind Me Tomorrow é experimental, porque soa como se a cantora estivesse brincando no estúdio, inserindo alguns elementos de forma espontânea e saindo totalmente da bolha do folk conservador. Mas não é um disco inventivo, no sentido de soar único e revolucionário. O impacto maior dele é para a própria carreira da Sharon, que, a cada trabalho, se revela mais interessante e mais multidimensional.

Foto: Raymond Totat

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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