“Feral Roots” marca a nova fase do Rival Sons

Rival Sons – Feral Roots (2019)

Por Gabriel Sacramento

Começo esse texto confirmando que, sim, encaro de forma positiva a mudança que vive o Rival Sons, banda de rock californiana, que lança agora o seu sexto trabalho de estúdio. O grupo começou com comparações com o Led Zeppelin, lá em 2009, mas evoluíram para uma musicalidade mais própria e distintiva. Isso porque os talentos que compõem o time são grandes e logo eles trabalharam para evidenciar isso, ao invés de simplesmente ganharem dinheiro em cima do que os Zeppelin já fizeram. Acredito que é exatamente o mesmo caminho que o Greta Van Fleet irá percorrer.

Feral Roots é o primeiro disco da banda lançado por uma gravadora grande, a Atlantic Records, especializada em R&B, jazz e soul. E o disco reflete isso, pois demonstra a busca da banda por novos rumos, novas vibes e novas pretensões. Até agora, a discografia estava impecável, com um ponto mais alto que é o Great Western Valkyrie (2014) e o sucessor que também foi muito bom, Hollow Bones (2016). No entanto, a sonoridade se encontrava presa em um mundo específico: o do blues rock, com todos os seus trejeitos anacrônicos. E mesmo que a banda soasse muito bem fazendo isso, o questionamento sobre se eles poderiam voar mais alto com uma proposta menos hermética era inevitável.

Para a produção, chamaram novamente o grande companheiro Dave Cobb, responsável por capitanear todos os discos desde Pressure & Time (2011). Cobb é dono de um currículo absurdo, que inclui Anderson East, Jason Isbell, Chris Stapleton e Brandi Carlile, e um grande entusiasta de música feita como antigamente. Ele também mixou o disco junto com o grande Andrew Scheps (Lady Gaga, Green Day) e tocou alguns instrumentos. Sua influência é ainda maior nesse disco, visto que percebemos claros contornos de soul, gospel e um pouco de folk/country ao longo do trabalho, como nunca na carreira do quarteto. Cobb consegue rejuvenescer a banda e extrair mais sensibilidade e sentimentalismo, sem soar brega, mas também explorar com sucesso outras facetas. Sua produção ajuda a direcionar as mudanças e a garantir a coesão.

“Too Bad” é uma boa prova de como a banda trabalha um pouco da urgência roqueira de sempre e da sujeira das distorções, aliados com uma melodia marcante e uma interpretação mais emocional do sempre incrível Jay Buchanan. O equilíbrio funciona muito bem, principalmente porque a produção consegue transmitir a sensação de que trata-se de algo mais sentimental sem abrir mão da espontaneidade. “Sugar On The Bone” parece algo escrito pelo Jack White, com uma veia dançante forte, mas com o pedal de fuzz ligado o tempo todo. “Back in The Woods” começa com uma bateria excêntrica, que lembra, é claro, John Bonham, e desenvolve para um blues rock clássico que grita para os ouvintes: “ainda somos o Rival Sons de sempre e ainda sabemos criar energia!”. Destaque especial para a voz do Jay, seu drive e seus ataques às notas, que injetam um gás de ânimo no ouvinte.

Definitivamente, um dos destaques fica para o final. “Shooting Stars” fecha o disco com vocais de fundo, proeminência de um instrumento diferente, o violão, e uma influência fortíssima do gospel. Tudo, no entanto, é feito com muita cautela: a faixa não é apressada para ficar agressiva ou pesada, mas desenvolvida aos poucos, sempre com reforço ao estilo principal de frases e às melodias. Cobb, também compositor da faixa, aparou o arranjo para deixá-lo totalmente focado na dinâmica da letra e na mensagem que ela quer passar, que é positiva e destaca elementos como amor, fé e alegria como superiores aos seus opositores: ódio, dúvida e desespero. 

Feral Roots só peca em duas ocasiões: na faixa que abre o disco, “Do Your Worst”, que começa com um pouco mais de agressividade e cai para um refrão mais suave de forma muito abrupta com uma transição apressada e meio forçada, que pode, já de cara, incomodar alguns ouvintes. O mesmo problema acontece com a faixa que dá nome ao trabalho, só na lógica contrária: a transição dos versos suaves para o refrão mais enérgico é mal feita. Nesses momentos, a banda falha em apresentar a espontaneidade que guia as outras escolhas das demais faixas.

Mesmo com esses entraves, o disco funciona bem como um todo. Para os ouvintes que abraçarem a mudança, será como um marco de um novo momento, com expectativas altas para o futuro. A coragem e a vontade de experimentar convencem, e o cuidado com a produção para que tudo soasse honesto faz valer a audição. Resta ver o que vem por aí.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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