“Euphoria Morning”, do Chris Cornell, completa 20 anos

Chris Cornell – Euphoria Morning (1999)

Por Gabriel Sacramento

Um dia em 1998, o casal de músicos Alain Johannes e Natasha Schneider recebeu em sua casa Chris Cornell, ex-vocalista do Soundgarden. Os três se reuniram para trabalhar naquele que se tornaria o primeiro disco solo do cantor de Seattle. Um marco e tanto para sua carreira, que até então só tinha conseguido ganhar reconhecimento especial pelo trabalho com a banda principal, com a qual gravou discos seminais para a cena roqueira de Washington, como Superunknown (1994) e Badmotorfinger (1992).

Euphoria Morning — cujo título seria Euphoria Mourning, algo como lamentação eufórica,  mas foi trocado para facilitar — é um disco com uma qualidade incrível, que já nos permite, apenas 20 anos de lançado, chamá-lo de clássico. No entanto, embora tenha sido adorado pela crítica, o disco não vendeu bem na época e até hoje é desconhecido por muita gente.

A produção e as letras

Alain, Natasha e Chris produziram e mixaram o projeto no home studio do casal em LA, bem como fizeram boa parte da instrumentação. Ric Markmann ainda contribuiu com baixo e Josh Freese na bateria. Sem contar as várias pequenas participações notáveis, como a de Matt Cameron, o cara por trás do kit do Soundgarden, em “Disappearing One”. O grande destaque do disco é o seu tom fortemente psicodélico, do início ao fim, algo que a produção soube perfeitamente extrair e enfatizar, construindo camadas emocionais por cima. A imprensa chegou até a chamar o disco de “folk rock psicodélico” — um termo que eu particularmente gosto muito e que descreve muito bem as canções. Essa veia psicodélica é muito influenciada pelos delírios experimentais do Soundgarden, principalmente no Superunknown (1994) e Down On The Upside (1996) e, pode-se dizer, pelas referências do cantor: muita coisa entre Beatles e Pink Floyd.

“Can’t Change Me” já começa com uma boa movimentação rítmica, guitarras empolgantes e timbres esquisitos, bem como um refrão cantarolável. Essas são algumas das características do som do Cornell no resto do álbum. A produção abusa de estruturas dinâmicas, que mudam bastante e dão espaço para efeitos especiais e solos incomuns, mas também aproveita bem os momentos estratégicos para entregar ótimos e engajantes refrãos. Uma das coisas que eles mais manipulam é o tempo das faixas: boa parte delas tem um andamento mais arrastado, o que, unido com a harmonia e com os efeitos, ajuda a criar esse senso de desorientação psicodélica tão marcante.

A produção tem uma abordagem bem literal e cinematográfica. “Preaching The End of The World” fala, como o título sugere, de um contexto apocalíptico, então, a produção, como uma boa direção de um filme, enche a faixa de efeitos que parecem sons de explosões, como a destruição do mundo como conhecemos. “Wave Goodbye” — que faz referência à triste morte por afogamento do incrível Jeff Buckley, grande amigo de Cornell na época — agrega sons aquáticos e uma sonoridade que parece meio fluida. Alain, Chris e Natasha conseguem construir imagens sonoras com a produção, o que faz o disco ser imaginativo e funcionar como uma experiência total de imersão.

Outra coisa que a produção sabe trabalhar bem é a melancolia: as canções exploram harmonias complexas que dão suporte à dissonâncias melódicas do Cornell, usadas para reforçar o tom sorumbático e triste. As letras deixam claro o estado em que o cantor se encontrava no momento: com sua banda em hiato, casamento quase no fim e problemas com excesso de bebida. Ademais, um amigo, Buckley, tinha morrido de uma forma muito estranha e abrupta em 1997, o que também inspirou um pouco da tristeza do álbum — e seu estilo de cantar, como discutirei mais adiante.

Mesmo sendo aberto para efeitos diversos e explorações sônicas advindas de experimentações malucas de estúdio, o disco possui o porte de um disco folk, já que é bem calcado no violão e piano. Parece ter sido justamente pensado para a possível adaptação para arranjos acústicos, visto que Cornell naquele momento se tornava um artista solo. No entanto, na época, a turnê foi com uma banda mesmo, mas Cornell iniciaria, sim, um turnê acústica mais ou menos oito anos depois do lançamento, depois do fim do Audioslave.

Os arranjos parecem soar abertos para a voz do Cornell, com uma perfeita comunicação e interação instrumental-vocal, como em poucos discos. A subserviência do instrumental surge como se todos eles estivessem ali esperando o cantor brilhar e assistindo, celebrando e reverenciando o artista principal.

A voz 

A voz do Chris Cornell só começou a ser reconhecida como diferenciada depois do disco do Temple of the Dog, autointitulado, de 1991, quando a imprensa local descobriu que o jovem, que cantava umas loucuras underground no Soundgarden, “sabia cantar”. Da mesma forma, quando lançou Euphoria, Cornell explorou linguagens diferentes que permitiram que ele expandisse suas habilidades como cantor. Mas se no Temple ele explorou uma veia meio gospel, com um timbre jovial e notas cristalinas, em Euphoria, sua abordagem foi mais agressiva e pesarosa.

“When I’m Down” apresenta o cantor em uma das suas mais primorosas interpretações — junto com “Limo Wreck”, “Like a Stone”, “Cochise” e “Say Hello 2 Heaven”. É simplesmente cortante ouvir o grau de honestidade com a qual ele interpreta alguém apaixonado, mas infeliz, de certa forma, preso ao sentimento como quem está preso a uma corrente. Esse pesar e desespero são transmitidos com sucesso em cada linha, mas ficam mais evidentes quando Chris canta as notas mais altas, com seu admirável belting — técnica que ajuda o cantor a atingir agudos com potência e naturalidade — e a velha companheira distorção na voz, características que fizeram dele Chris Cornell.

Em momentos como “Steel Rain”, o cantor aproveita o clima mais tenso e arrastado para cantar notas com uma fluidez incrível, abusando da extensa tessitura vocal e do domínio das técnicas já citadas. Essa é a música mais melancólica do disco, mas consegue fazer a tristeza soar bela, nobre e solene. “Mission” é sensacional do começo ao fim: nos versos, Cornell canta com sutileza e cuidado algumas notas bem dissonantes e esquisitas, guardando a explosão para o final da faixa. (No show tributo ao Cornell desse ano, Jack Black brincou que Cornell cantava notas que nem existiam, porque ele atingia algumas de uma forma que quase ninguém — nem ele mesmo — conseguia imitar depois. Pois bem, nessa música, isso fica claro.)

Em um vídeo sobre o Jeff Buckley, o guitarrista Gary Lucas conta o que admirava sobre as performances do jovem cantor: ele sempre começava suas canções de forma mais tímida e terminava de forma totalmente catártica, como quem tem uma surpresa, mas prefere esperar até o final para divulgá-la, criando expectativa no ouvinte e recompensando aos poucos. Propositadamente ou não, Chris Cornell utilizou essa mesmíssima abordagem em seu trabalho vocal nas canções de Euphoria, sempre trazendo momento estonteantes pouco antes dos finais das faixas. Em “Wave Goodbye”, Cornell tentou homenagear explicitamente o amigo não somente com a letra, mas com o estilo de cantar, imitando os falsetes suaves que o cantor fazia e o vibrato característico.

Euphoria Morning foi o disco do Chris Cornell que ele nunca conseguiu igualar depois. Johannes e Schneider posteriormente trabalharam em diversos outros projetos, inclusive em uma banda pouco conhecida na época, o Queens of the Stone Age, e Cornell viria a formar o Audioslave dois anos depois, com o pessoal do Rage Against The Machine, para cantar coisas ainda mais diferentes e expandir ainda mais seu vocabulário musical. Sua carreira solo então foi do folk psicodélico para o pop eletrônico, no terrível Scream (2009), e para o folk mais conservador em Higher Truth (2015), que guarda um pouco do primeiro álbum e foi, infelizmente, seu derradeiro álbum de estúdio.

O cantor chegou a ser chamado de “The Voice” por Alice Cooper, além de ter obtido elogios de ninguém menos que Ronnie James Dio, Eddie Vedder, Vernon Reid, Axl Rose, entre outros. Foi um grande artista e expôs suas fragilidades emocionais de forma sincera e honesta em Euphoria, embelezando tudo com um trabalho absurdo de vocal e produção. Por seu conceito forte e suas canções excepcionais que ainda soam icônicas hoje, o álbum merece ser chamado de clássico.

Seu legado ainda pulsa, Chris.

Confira outros especiais que fizemos:

Beatles – Álbum Branco (1968)

Beatles – Revolver (1966)

Guns N’ Roses – Appetite For Destruction (1987)

Soundgarden – Superunknown (1994)

Pearl Jam – Vitalogy (1994)

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.