“Assume Form”, do James Blake, é melancólico e bem produzido

James Blake – Assume Form (2019)

Por Gabriel Sacramento

Recentemente, vi um texto sobre um estudo que afirmava que o pop está ficando triste. De fato, a pesquisa é interessante e provou que essa onda tem sido crescente nos últimos anos, no entanto, a tristeza sempre foi um combustível e fonte de inspiração para a música. Desde 1955, quando Sinatra gravou aquele que muitos consideram o primeiro álbum da história, In The Wee Small Hours, passando por toda a tradição do blues até Adele e Sam Smith. Na década passada, um grande marco para provar que a tristeza ainda é vendável foi o sucesso de Back to Black (2006), da Amy Winehouse. 

James Blake construiu sua carreira baseada nisso. Mas, evidentemente, não só nisso. O grande destaque de seus discos é a forma como ele canaliza a melancolia e busca contornos estratégicos para ela, o que transforma suas produções em grandes enigmas sônicos prontos para serem desvendados. Overgrown (2013) foi um disco que já apresentava isso, embora fosse mais quadrado, e em The Colour in Anything (2016), o artista realmente explorou essa característica. Foi como uma libertação de várias obrigações, como número de faixas e estilos.

O disco novo, Assume Form, conta com um conjunto de produtores, mas todos liderados pelo próprio artista. Segue um pouco a ideia do anterior, de não se prender à regras simples e buscar formas diferenciadas — e até menos acessíveis — de expressar o mesmo sentimento. Nas letras, o cantor trata da vida com sua namorada atual, Jameela Jamil. Blake também fala abertamente de questões de saúde mental em suas letras, sem receios, o que inclusive levou a rotulações com as quais o artista parece não estar muito confortável (chegou a postar no Twitter um texto desabafando contra essa barreira que atrapalha quem deseja falar sentimentos publicamente).

É interessante notar como Blake busca construir suas canções. O cantor e produtor já abre o disco de forma soberba com a faixa-título, na qual, trabalha um bom senso de confusão ao sobrepor elementos que parecem estar sendo norteados por tempos diferentes. Com a adição das síncopes, o ouvinte fica com a constante sensação de que algo está errado ou fora do lugar. Considerando que, nesta canção, ele fala sobre depressão e sobre “estar fora do corpo”, constatamos que a música transmite perfeitamente o que o autor desejava passar com o texto. Nas faixas em que explora o hip-hop — como “Mile High”, que conta com Travis Scott —, James envereda por um caminho mais simples e mais, digamos, previsível, colaborando mais com a expectativa do ouvinte.

Em “Barefoot In The Park”, o cantor traça uma parceria interessante com a talentosa Rosalía, cujo estilo combina muito bem com a identidade do britânico. De certa forma, a canção apresenta os trejeitos que estão cada vez mais comuns no pop dos últimos tempos: base etérea, sem nenhuma instrumentação sólida, e vocais sobrepostos em harmonia. Em faixas como “Don’t Miss It”, Blake mantém o padrão de construir camadas por cima do piano como base, abusando de texturas eletrônicas tímidas e de elementos que entram e saem da faixa sem interferir na harmonia. “Lullaby For The Insomniac” termina o disco muito bem, com harmonias fortes e marcantes, e até meio sombrias, capazes de tirar o sono, e não induzir a ele, como o título sugere.

Também vale a pena prestar atenção na forma como James edita o seu álbum, inserindo elementos precisos em momentos específicos, lembrando o conterrâneo Sampha. O interessante é que esses elementos secundários não parecem exatamente pensados para cooperar com os arranjos, como instrumentos com funções bem definidas, mas, sim, para preencher a imagem que o cantor tenta pintar, como um toque de acabamento apenas. O minimalismo é o principal norte dele, por isso, o produtor sempre busca trabalhar com adições que não sacrifiquem esse feel especial.

Esse minimalismo deve muito à mixagem do trabalho, do próprio Blake e Nathan Boddy. A mix confere o tom meio melancólico e fechado do disco, mas também consegue texturas belíssimas, que soam como mergulhadas em algum meio líquido. É um trabalho simples, que busca realçar os vocais e conferir profundidade às bases, mas é eficiente e importante para que a mensagem do cantor seja transmitida com sucesso.

Mesmo que muitas pessoas associem James Blake somente a uma imagem de artista extremamente sentimental, principalmente por conta de suas letras, eu consigo vê-lo também como alguém que preza por cada detalhe em seus discos e os produz de forma absurdamente racional e fria. Talvez esse contraste seja o que continua fazendo o inglês interessante, mesmo depois de anos de seu surgimento. Assume Form é uma ótima continuação do que ele tinha feito em 2016, mesmo que menor e menos pretensioso, mas com o mesmo senso de desorientação orientada.

 

 

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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