Disco de estreia da Tallies é um como um sonho inesquecível

Tallies – Tallies (2019)

Por Gabriel Sacramento

A Tallies é uma daquelas gratas surpresas que você encontra por aí sem querer na internet e que só te faz sorrir em cada audição. É como estar preso por bastante em um sonho bom que você teve, mesmo depois de horas de acordado. Aliás, é por isso mesmo que chamam o som dessa galera de dream pop: é o tipo de sonoridade que parece atrair o ouvinte para uma outra dimensão, além do que é real e reconhecível pelos sentidos. Uma experiência de imersão em um universo de possibilidades musicais.

O grupo é canadense e é formado por Cian O’Neill na bateria, Stephen Pitman no baixo, Dylan Frankland, guitarras, e Sarah Cogan, vocais. E para quem tá começando agora, eles já chegam com tudo. O trabalho de estreia foi produzido Josh Korody e Dylan Frankland, ambos também trabalharam na engenharia do trabalho no Candle Recording, estúdio de Toronto. A mix ficou por conta do próprio Josh Korody. 

Foto por Colin Medley

“Trouble” é o primeiro contato que temos com a música deles. De cara, já dá para notar uma obsessão pelos anos 80, com um som que lembra um pouco de The Smiths, Stranger Things e deixa evidente que a nostalgia é um elemento-chave das receitas que eles usam para fazer canções. O dream pop do Tallies nos leva diretamente a sonhar sobre aqueles verões passados, de um mundo bem diferente, mais fácil, alguns diriam. Outro destaque desse tracklist é “Not So Proud”, com melodias angelicais e um baixo inquieto que enriquece e acrescenta o devido charme à cada seção. “Have You” também é ótima, com um refrão fácil de assimilar e uma sonoridade fiel ao estilão das outras.

O destaque do grupo é justamente a forma como o pop do “dream pop” deles é fortemente enfatizado. A produção de Korody e Frankland é bem competente em extrair melodias maravilhosas e interpretações devidamente suavizadas, o que deixa tudo com uma cara de disco pop meio juvenil, mas também com um quê de coming-of-age musical. É como aqueles filmes em que acompanhamos um protagonista com os mesmos receios que nós, enquanto crescem e abandonam certos hábitos, adotam outros, fazem escolhas difíceis, se desapontam com alguns resultados, etc. É como se as inocentes melodias cantadas pela ótima Sarah fossem esse personagem: crescendo, fluindo e sendo desenvolvidas aos poucos ao longo do disco, até o final quando alcança a maturidade.

Mas a parte “dream” é, obviamente, bem acentuada também. Parte do mérito vai para a banda — que executa muito bem suas ideias e merece reconhecimento por ter pensado o conceito —  mas um grande peso recai sobre os ombros da produção, assim como em For Ever, do Jungle. Esse é um tipo de disco que é um antes da pós-produção e completamente outro depois da finalização, por conta do seu conceito forte dependente de uma mixagem que crie uma imagem sonora convincente. A mixagem de Josh Korody define o grau de onirismo que a banda proporciona ao ouvinte, recheando as guitarras de cores quentes e reverbs flutuantes, mas deixando o baixo com um agudo brilhante e bastante solidez. O tratamento coloca por cima de tudo a voz da Sarah, como uma cereja em um bolo, evidenciando muito bem a juventude na sua voz e utilizando isso para o bem da proposta.

Mas vale um parágrafo especial para Stephen Pitman, o baixista do grupo. Seu trabalho aqui é fundamental para garantir que o ouvinte não fique entediado, nem perca logo a vontade de continuar imerso nesse universo sônico. Suas linhas são dinâmicas, precisas e fortemente melódicas, mas também são fortemente consistentes quando necessitam ser — uma abordagem extremamente criativa e incomum, que foca em extrair o melhor do instrumento. É um dos melhores trabalhos de baixo que ouvi em um disco nos últimos anos e destaca muito bem o instrumento, que muitas vezes é esquecido no banco de trás. Destaque também deve ser dado para a produção que aparou bem os arranjos e definiu muito bem o baixo como instrumento-chave desde os primeiros segundos ao final, coordenando e extraindo boas ideias que o instrumento contasse sempre uma história nova para o ouvinte.

Com arranjos simples, que seguem uma mesma lógica do início ao fim e estabelecem um senso de ordem e familiaridade, Tallies chega no final tão fresco quanto o início, como se os últimos 45 minutos da sua vida não tivessem nem existido, o que estimula o ouvinte, é claro, a continuar conectado. Um disco bonito que merece a atenção de todo mundo. Como um sonho bom que você simplesmente não quer esquecer.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

Comentários

    Anderson Tissa

    (24 de janeiro de 2019 - 13:58)

    Texto e banda bacanas. =)

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