John Garcia está de volta ao Stoner Rock

John Garcia – John Garcia and the Band of Gold (2019)

Por Gabriel Sacramento

Se não fosse por John Garcia, não teríamos Queens of the Stone Age. Nem Royal Blood. Muito menos Scalene. O cantor fez parte de uma das bandas mais importantes dos anos 90 que quase ninguém reconhece: o Kyuss. Hoje, se orgulha de ser um pai de família, que aborda temas mais maduros em suas letras e não consegue desvencilhar sua vivência da sua arte. John Garcia and the Band of Gold é o seu terceiro disco solo, em uma carreira que começou recentemente, em 2014.

O Kyuss definiu aquilo que veio a ser chamado de “desert rock” e, junto com o Melvins, estabeleceu a versão moderna do Stoner Rock. Seguindo, basicamente, à risca aquilo que o Black Sabbath já tinha estabelecido como princípio do subgênero. Disso, veio a influência para uma penca de bandas que a gente ouve por aí.

Já no segundo disco, Garcia deixou claro que queria ir além do Kyuss, mas de uma forma bem relacionada com o legado da banda. The Coyote Who Speak In Tongues foi um disco impressivo para mim, pois mostrou como o violão pode ser usado para alcançar uma intenção agressiva e roqueira — algo que o Myles Kennedy também explorou em seu Year of the Tiger (2018).

A banda é composta pelo guitarrista Ehren Groban, o baixista Mike Pygmie e o baterista Greg Saenz. A produção do novo disco ficou a cargo de um velho conhecido: Chris Goss, a voz do Masters of Reality, produtor que já coordenou discos do Queens e do Kyuss. Portanto, sabe o que faz. Já a mixagem foi assinada por Martin Schmelzle. Como é de esperar pelo nome contratado para comandar o direcionamento, o disco segue bem o estilo clássico do “rock desértico” do Kyuss, representando uma volta do John Garcia ao estilo do primeiro álbum.

A produção enfatiza as guitarras corpulentas e os riffs gigantes e sólidos enquanto destaca os vocais agudos do Garcia no processo. É como se as canções fossem formadas por duas camadas basicamente: os riffs, tocados praticamente em uníssono por guitarra, baixo e bateria, e os vocais. Um grande destaque é a forma como as soluções melódicas do John interagem com a harmonia dos riffs: elas não seguem à risca a noção dos riffs, mas fluem livremente sobre eles — como se não respeitassem a ideia de um “tom” específico mesmo. (O cantor usa muito aquele efeito de cantar notas de um tom maior sobre uma base de tom menor, o que já foi exaustivamente usado por diversos outros cantores de rock e acrescenta um toque meio psicodélico.)

E isso é o que chama a atenção acerca do disco e o que faz com que ele soe interessante para o ouvinte. Enquanto as bases não mudam muito, com poucas seções e riffs principais bem estabelecidos (repetitivos, quase hipnóticos, como Kyuss e Queens), a liberdade do John cantando é o que surpreende e o que gera esse senso de expectativa no ouvinte: estamos sempre esperando para qual caminho seus vocais irão e a direção na qual ele vai conduz o ouvinte rumo à resolução. Estamos ouvindo o disco de um artista solo, e não de uma banda, e a produção faz questão de deixar isso claro.

Junte isso ao fato de que John Garcia tem uma das vozes mais marcantes do rock dos últimos anos e um carisma absurdo, além de muita energia em suas interpretações. Em alguns momentos, ele parece um cantor de hard rock, com um estilo de cantar que sugere descontração, movimento e boogie — quase como se estivesse cantando na banda errada, outro dos fatores que fazem com que sua voz se destaque tão bem. O poder das melodias se une com o poder de Garcia de dar vida a elas e temos um disco que consegue garantir o investimento do ouvinte do início ao fim.

A mixagem de John Garcia and the Band of Gold é até estranha, se você considerar que é muito mais brilhosa e cuidadosa com os timbres do que a maioria dos discos de stoner raiz, como os do Kyuss, por exemplo, ou até mesmo o disco de 2013 do Vista Chino, banda formada pela maioria dos integrantes do antigo grupo dele. Talvez isso tenha sido uma escolha proposital de Garcia e Gloss para estabelecer uma identidade moderna ao seu som. Ou talvez simplesmente foi sem intenção. O que sabemos é que os instrumentos soam muito bem balanceados: a base, um pouco mais contida ao fundo, enquanto os vocais bem proeminentes, com bastante luz e um tratamento mais “na cara”.

Gosto de entender Coyote como uma fase em que Garcia queria se desligar um pouco do som que o consagrou e experimentar uma abordagem nova. Com isso em consideração, esse novo disco me parece uma celebração dessa nova reencarnação do stoner rock que ele ajudou a criar com seus amigos nos anos 90. Não sabiam eles que isso levaria ao surgimento de uma bandas mais lucrativas do rock em nossos tempos.

Garcia prova que, sozinho, ainda tem muito a dizer com sua música: sua garganta e sua visão ainda rendem experiências totalmente gratificantes.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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