Mais um vibrante disco do The Dogs para começar o ano em 220V

The Dogs – Before Brutality (2019)

Por Gabriel Sacramento

Mais ou menos um ano depois de The Grief Manual, aqui estamos nós novamente para falar do The Dogs, banda norueguesa composta por Kristopher Schau, Mads Martinsen, Roar Nilsen, Kenneth Simonsen, Henrik Odde Gustavsen e Stefan Höglin. Aliás, mesmo depois de doze meses, o álbum anterior me soa tão pungente quanto soou quando ouvi no último janeiro. Como afirmei naquela crítica, a proposta do grupo é prezar pela tradição — todo janeiro um disco de dez faixas — e por regras bem estabelecidas, se desafiando a extrair resultados consistentes e empolgantes. 

Before Brutality foi produzido pela própria banda e mixado por um colaborador frequente, Andreas Eide Larsen. O sexteto mantém as mesmas batidas do disco anterior: som vibrante, hardcore punk, com uma veia fortemente garageira e lo-fi, mas também com aquele pezinho no gótico e no sombrio meio creepy. A produção equilibra bem duas facetas que foram bem representadas pelos dois singles liberados antes: uma mais suja, rápida e explosiva e outra mais melódica, cadenciada e angustiante. Ademais, há um claro esforço da banda em explorar os limites e tentar novos elementos, sejam instrumentos diferentes ou funcionalidades diferentes para os instrumentos típicos.

No entanto, vale ressaltar que os Dogs focam bem mais em exposições melódicas do que na porradaria monocromática de sempre. E, em algumas canções, o objetivo deles foi mesclar as duas facetas, o que conseguem de forma orgânica. “At The Birth of a Song” evidencia bem isso: paradas estratégicas para que o vocal realce a melodia e frase principal, mas com a explosão e fúria agressiva de sempre em outras seções. Na faixa que fecha o trabalho, “Tried To Borrow Some Colours Off Your Rainbow”, fica evidente as limitações composicionais que marcam o jeito de pensar do grupo, que acaba se repetindo muito com soluções simples. Mas isso não chega a prejudicar a canção.

A faixa de abertura, “Let’s Start a Riot”, é uma das melhores já escritas pelo grupo norueguês. Em apenas alguns minutos, o ouvinte já se pega cantando junto. Os backing-vocals são muito bem alocados pela produção como forma de enfatizar a melodia principal no refrão. A longa duração dos acordes, algo que eles exploram à exaustão em outras faixas também, ajuda a estabelecer o caos, ao mesmo tempo em que cria um forte senso de movimento. Outro destaque dos momentos mais agressivos é a urgente “Suicidal Appetite”.

“There Won’t Be An Encore” talvez seja o grande destaque do disco e a primeira faixa empolgante do ano. Sua sonoridade é uma mistura de The Good, The Bad, The Queen com um pouco de David Bowie e, por que não?, Franz Ferdinand no último disco, Always Ascending (2018). É uma faixa mais emocional, com grande ênfase na performance estonteante do vocalista Kristopher Schau, que interpreta com muito pesar, desespero e angústia. E o final é simplesmente apoteótico.

Com relação à identidade sonora, eles continuam investindo no mesmo estilo de The Grief Manual. A mixagem é extremamente caótica, com instrumentos embolados, sem muito espaço, e isso, claro, não é um demérito. O choque de hi-hats com guitarras e vocais contribui para que o ouvinte se sinta impactado com a urgência sonora da banda, portanto, é uma ótima escolha de produção. Eles também utilizam a mesma abordagem de adicionar distorção aos vocais, explorando muito bem esse efeito em seções específicas — e esse efeito ganha mais intensidade nos finais das canções para gerar catarse e a sensação de perda de controle, como se as canções fossem se transformando aos poucos em grandes massas incompreensíveis de ruído. Os instrumentos são tratados com porções generosas de graves profundos, principalmente a bateria que soa abafada e sem brilho.

Before Brutality mostra que os Dogs amadureceram um pouco nas composições, pois agora conseguem trabalhar melhor diversas sensações em uma só faixa. Mas também mostra que eles continuam muito bons e incrivelmente chocantes com o conceito principal que estabeleceram anos atrás. Mais um grande álbum para a discografia sólida e organizada, características que, ironicamente, não fazem parte da forma como pensam seus arranjos e composições.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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