Jamie Cullum prova mais uma vez que é possível ser criativo com covers

Jamie Cullum – Song Society Playlist (2018)

Por Gabriel Sacramento

A carreira musical de Jamie Cullum é uma prova de que é possível ter algo a dizer, e expressar isso de uma forma consistente, com interpretações de canções compostas por outros artistas. Enquanto digito isso, me lembro dos crooners antigos que utilizavam bastante esse artíficio, mas que foram se tornando obsoletos com o passar do tempo, já esse estilo passou a ser considerado indesejado. O que se aconselha hoje em dia é que os artistas busquem sempre suas próprias composições. Cullum encontra formas de fazer essa regra parecer conservadora demais.

O jovem britânico, no entanto, não se contenta em simplesmente reproduzir o que foi criado. Ele trabalha as canções sob uma ótica própria, ressignificando o que precisar para gerar um efeito diferente. Não é só colocar as faixas em uma configuração de jazz, mas trabalhar elementos específicos em cada uma delas. Portanto, seu jeito de fazer covers é saudável, na medida em que ele construiu sua carreira com base no seu próprio talento. Seus discos mais voltados para os clássicos do jazz —  entre eles, o maravilhoso Pointless Nostalgic (2002) e o mais recente Interlude (2014) — são importantíssimos para apresentar esse gênero para a geração mais nova, que tende a rejeitar essa linguagem musical. Aliás, não só ele: gente como Norah Jones, Michael Bublé e Diana Krall também tem um papel nisso.

O novo álbum é na verdade um compilado de canções que Cullum gravou em um projeto ambicioso: aprender, junto com sua banda, uma canção conhecida e gravar em uma versão jazzística em uma hora. Desde 2015, o cantor vem publicando em seu canal do YouTube essas faixas, mas no final do ano passado, decidiu lançá-las como um álbum.

Pela própria proposta do álbum, é de esperar muito espaço para improvisação e para que Cullum e sua banda insiram elementos novos dentro dos arranjos super conhecidos. E isso foi justamente o que ele fez. Sua produção busca ressignificar as canções explorando aspectos que se encontram escondidos nas versões originais ou simplesmente tendo a liberdade para sugerir releituras harmônicas que criam novos climas. Em alguns momentos, ele soa bem próximo do que uma versão jazz comum das músicas soariam, em outros, ele explora sua criatividade para desconstruir as canções e dar ênfase à linguagem jazzística típica de seus outros trabalhos.

“All I Want For Christmas Is You”, aquela velha conhecida da Mariah Carey, ganhou uma versão bem próxima da original, que já tem um sotaque meio jazz. Em “Uptown Funk” (Mark Ronson), um dos pontos altos, Cullum ressalta um aspecto soulful da linha melódica original, chegando a soar como um Ray Charles em alguns momentos, em uma interpretação que esbanja swing. No momento instrumental, Cullum insere um solo de teclado típico de seus arranjos. Outro destaque é “Can’t Feel My Face” (The Weeknd), que virou uma balada bem leve com um riff persistente de baixo que não muda mesmo em meio às mudanças de acordes.

Mesmo com tantos acertos, vale destacar um só erro nesse disco: “Thinking Bout You”, do Frank Ocean. Nesta versão, o cantor parece estar entediado ao interpretar a faixa e falha em captar a sensualidade e o swing do R&B original ou até mesmo em passar alguma mensagem com seu jeito de interpretar.

Apesar desse ponto negativo, Song Society Playlist termina consistente como um disco que parece ter sido escrito pelo próprio Jamie Cullum. Ele exibe criatividade ao trabalhar as várias possibilidades de sua banda e de seu estilo e ao mesmo tempo demonstra um cuidado impressionante com as composições dos outros artistas, servindo também como uma forma de homenageá-los. Misturando elementos de jazz swing com jazz instrumental improvisado, Cullum também consegue amarrar essas diferentes pontas e fazer o estilo soar convincente como um só. Mais um trabalho que chama a atenção para a grandeza desse universo que é o jazz.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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