Baco Exu do Blues restaura o significado do blues em novo disco

Baco Exu do Blues – Bluesman (2018)

Por Gabriel Sacramento

O que é ser bluesman para você? Muitos diriam que é ser um guitarrista sentado em um banquinho, tocando em um padrão harmônico e rítmico e cantando com voz rouca suas letras sobre acontecimentos tristes da vida em um tom melancólico. No entanto, para Baco, rapper baiano, ser bluesman é muito mais do que isso. Para explicar isso, o rapper fez um estudo do blues e da definição de bluesman em seu segundo álbum, Bluesman.

Claro que a definição de “bluesman” não é fechada: não é algo que se encontra no Merriam Webster, por exemplo. Mas, mesmo assim, Baco impressiona ao trazer uma leitura diferente do significado do gêneo, buscando na raiz do seu surgimento a sua essência. O blues surgiu como canto dos negros nas lavouras, como um grito daqueles sofridos trabalhadores diante das condições desumanas de escravidão. Aos poucos, o estilo foi ganhando o mundo e definiu basicamente toda a música popular como conhecemos hoje. Rock, soul, funk, jazz, folk, samba, hip-hop: todos esses estilos só existem por causa do blues. (Para dimensionar a influência do gênero, é só imaginar, por exemplo, que Muddy Waters foi o cara que começou a eletrificar o blues em 58, abrindo espaço para o rock’n’roll, e apresentou um ainda jovem Chuck Berry a Leonard Chess em 1955. O resto é história.)

O novo disco foi produzido por ele mesmo e conta com várias participações que agregam muito ao todo. Logo na abertura, Baco já nos deixa com sua definição de blues: “tudo que quando era dos negros, era do demônio e quando virou branco, foi aceito”. Depois de propor a generalização do conceito, ele consegue amarrá-lo ao seu hip-hop com bases de trap, o que, claro, também podemos chamar de blues.

As sequências instrumentais não são grandiosas, contam com algumas poucas ideias se sobressaindo, mas sem se destacar demais. O foco aqui, assim como no Crise (2018), do Rashid, é o Baco e suas letras poderosas. Sua interpretação ilustra bem um eu-lírico furioso, mas também irônico, que não se abstém de declamar suas fragilidades (como quando fala de sua depressão em “Minotauro de Borges”).

Sob a égide da universalização do conceito do blues, o rapper destila sua principal mensagem: a insatisfação com o racismo e com a desvalorização da cultura dos negros, no geral. Nesse sentido, o disco também é um festival de punchlines, assim como os ótimos CriseO Menino Que Queria Ser Deus (2018), do Djonga, e o Galanga Livre (2017), do Rincon Sapiência. As letras evocam imagens em nossa mente, nos levando à reflexão e à empatia com relação ao que o autor descreve. Frequentemente, elas nos atingem no estômago com tanta pungência, que precisamos de uma pausa entre uma faixa e outra.

Mesmo navegando pelo trap, o baiano rejeita os arranjos quadrados que marcam boa parte dos traps que ouvimos por aí. Ele sempre propõe pausas estruturais dramáticas, que nos deixam sem saber para onde as faixas vão, e explora bem elementos orgânicos de outros gêneros, como música caribenha em “Kanye West da Bahia”, um dos arranjos mais complexos do álbum. Em “Bluesman”, o clássico indiscutível “Mannish Boy”, do icônico Muddy Waters, funciona como sample — algo que é interessante se a gente considerar que existiu de fato uma grande influência do Waters no início do hip-hop.

Sua produção também mistura o rap mais agressivo com músicas melódicas românticas e momentos mais calmos. O início de “Queima Minha Pele”, por exemplo, ilustra bem isso, com uma ótima participação do excelente Tim Bernardes. “Flamingos” combina um sample meio jazzy, com uma guitarra meio wah-wah bem ao fundo, um piano bem distante com as vozes melódicas, emprestadas do trio folk Tuyo, e o rapping menos intenso. Para mostrar que não poupa imaginação na confecção de seus arranjos, Baco ainda insere um solo de guitarra sensacional do meio para ao final: o solo parte da melodia principal e vai ganhando outras cores aos poucos. Também romântica, “Me Desculpa Jay-Z” tem um quê de MPB e brinca com clichês de músicas amorosas de um jeito bem interessante.

No discurso final de “B.B.King”, em um dos grandes momentos do álbum, Baco sugere, em um delírio meio nietzschiano, que ser bluesman é ser o “próprio deus e o próprio santo”. De fato, sobra ambição, mas não dá para dizer que a grandeza não combina perfeitamente com a genialidade de sua obra, que, ao fim, consegue propor uma releitura convincente do blues e esbravejar contra o racismo, levantando as bandeiras que sempre foram importantes para o gênero e para a comunidade negra. Um dos destaques do ano.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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