“Oxnard” é Anderson .Paak ainda melhor no que faz

Anderson .Paak – Oxnard (2018)

Por Gabriel Sacramento

Em 2016, uma série de álbuns de R&B e hip-hop efervescentes movimentaram a cena da música e foram destacados em diversas listas de melhores, inclusive a do Escuta Essa Review. Uma das unanimidades foi Malibu, segundo trabalho do americano Anderson .Paak, e seu primeiro grande disco como um compositor de mão cheia, autoral, dono dos rumos do projeto e com uma personalidade forte e imponente. Dois anos depois, Paak traz mais do seu estilão, que já está se tornando inconfundível, em Oxnard — título que faz referência à cidade em que nasceu na Califórnia.

Quando digo que Malibu foi o primeiro grande registro, não intenciono menosprezar o primeiro, Venice, de 2014. Apenas acredito que este não teve o impacto que aquele pois ainda não apresenta um Paak seguro de suas convicções sonoras e com um som definido. Mas é fato que desde 2013 — quando ele surgiu com um disco de covers chamado Cover Art, ressignificando canções de diversos artistas diferentes como Beatles, Neil Young e The White Stripes —, o jovem Anderson já dava indícios de que seria um dos artistas mais brilhantes de sua geração. (A versão mezzo folk mezzo soul/R&B de “Blackbird”, do álbum branco, é sensacional.)

Ou seja, Oxnard carrega um pouco do “teste do segundo álbum”, mesmo que seja, na verdade, o terceiro. E o projeto lida com isso com muita ambição: é produzido por diversos nomes, mas principalmente por Dr. Dre e pelo próprio Paak, e traz uma série de participações especiais. Kendrick Lamar, J. Cole, Snoop Dogg, Pusha T e o próprio Dre acrescentam ao álbum um pouco do talento de cada um. Mais impressiva que essa síntese, difícil.

Musicalmente, temos mais da boa capacidade de misturar R&B com hip-hop que Paak nos mostrou nos seus discos anteriores. O destaque é que a forma como ele pensa os dois gêneros foge do padrão comercial que a maioria dos artistas utilizam, enfatizando o fato de que ele explora a própria forma de fazer as coisas de maneira bem madura. Por exemplo, no hip-hop moderno é muito comum que os artistas convidem cantores de R&B para os refrãos melódicos de suas faixas, ou seja, para momentos específicos. Nesses casos, é possível notar onde cada estilo está aplicado de forma regular e bem definida.

No estilo do Paak, no entanto, os gêneros estão diluídos entre si e interconectados, com uma transição fluída entre eles que faz com que pareçam um só. A mixagem, boa parte feita pelo Dr. Dre, foca em uma sonoridade leve que lembra muito o estilo lounge do neo soul dos anos 90, mas também acena para o hip-hop jazzy de gente como Kendrick Lamar e BadBadNotGood. O feel orgânico é muito forte, e os produtores trabalharam para que o ouvinte sentisse a força e a presença do swing tocado por instrumentistas humanos.

O que também favorece a fluidez dos gêneros é o fato da produção focar em estruturas menos convencionais para as canções. Ou seja, ao invés de investir em um padrão de verso-refrão-verso-refrão, como na música pop comum, Paak explora uma lógica cumulativa em canções como a que abre o play, “The Chase” — o que lembra o modus operandi de artistas clássicos, como James Brown, mas também se conecta com o modo de pensar arranjos do Maxwell na sua melhor fase, nos anos 90. Essa estrutura diferenciada também dá uma cara de improviso ao álbum e favorece a profusão de ideias.

Tenho que destacar também a própria performance do Anderson. Seu trabalho vocal é brilhante: ele vai do melódico ao rapeado em segundos, transitando com uma tranquilidade digna de quem domina muito bem as técnicas vocais de ambos os universos musicais. Seu flow é contagiante, com um estilo de rimar que casa muito bem com o ritmo e empurra as faixas para a frente. Mas suas interpretações são o que mais chama a atenção: a forma como emula personagens na voz me lembra outros grandes rappers como Eminem e o Lamar e faz com que o disco ganhe diversos tons distintos de emoção, adequados ao contexto específico de cada faixa.

Quanto às letras, Paak fala de vários temas, desde histórias da própria vida ao fato de ser um rapper famoso e reconhecido. Em “6 Summers”, uma das suas performances mais magnéticas, ele critica o presidente Donald Trump, mencionando diretamente suas polêmicas e fazendo um prognóstico sobre seu governo. Apesar dessa faixa, em outros pequenos e específicos momentos, o Paak político vem à tona, sempre com comentários pontuais e rápidos. Ainda sobre “6 Summers”: um dos momentos mais interessantes da letra é a linha “a revolução não será televisionada/ mas será transmitida ao vivo em 1080p no seu telefone móvel, ok?”.

Ainda não sei se Oxnard consegue superar seu irmão gêmeo, Malibu. Aliás, na dúvida, eu fico com os dois álbuns. Paak mostra mais uma vez que sua voz vale a pena ser ouvida e reafirma seu nome junto aos Thundercats, Flying Lotus e Dev Hynes da vida como um dos melhores e mais inquietos artistas da música moderna.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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