Mumford and Sons volta ao folk em “Delta”

Mumford and Sons – Delta (2018)

Por Gabriel Sacramento

O Mumford and Sons está de volta ao folk. Como um filho ingrato que saiu da casa dos pais, percebeu que a vida era trágica e triste lá fora e voltou arrependido. No entanto, a história da banda é um pouco diferente da do filho pródigo porque a ida para longe dos pais no caso deles foi bem-sucedida e rendeu elogios e um bom número de vendas. Wilder Mind (2015) foi um disco importante para aquele momento da banda, conferindo um pouco mais de ambição e de pretensão à proposta, além de evidenciar que eles são bons em indie rock. Mas, estão de volta para casa, e para alguns fãs, é o que importa.

Para esse regresso, eles convidaram um dos melhores produtores da atualidade, Paul Epworth. Epworth ficou conhecido por, na década passada, produzir diversos nomes do indie rock emergente, como Bloc Party e Rapture. Mas em 2010, ele conseguiu reconhecimento mundial, principalmente das academias de premiação, ao co-escrever “Rolling in The Deep” com a Adele. Daí, passou a comandar discos de gente grande como U2 e Paul McCartney. Recentemente, Epworth produziu os ótimos Electric Light (2018), do James Bay e V (2017)do The Horrors. Seu estilo é marcado por respeitar bastante as idiossincrasias das bandas e chegar a resultados específicos com muita classe nas escolhas.

Saber o histórico do produtor nos ajuda a compreender Delta, pois ajuda a saber que a volta ao folk do M&S não foi feita de maneira convencional, com um produtor do estilo que sabe todas as regras de cor. Ou seja, a volta para casa não foi pelo caminho de sempre, mas por um atalho que nunca tinham experimentado antes. Essa visão de um outsider contribui para que o resultado seja classudo e tenha identidade dissociável ao que estamos acostumados no folk moderno. Epworth foca bastante em interação de elementos concorrentes nos arranjos, em um som expansivo e cheio de reverb, mas também em extrair uma honestidade impressionante dos segmentos mais minimalistas do álbum.

Esse minimalismo ao qual me refiro é o que marca canções como “The Wild”: economia de instrumentos e um clima sonoro que remete aos primeiros minutos do dia quando acabamos de acordar ainda, sem saber nem em qual dia estamos. Já em “Darkness Visible”, a banda abre mão das regras e desembarca em terrenos experimentais, abusando de vozes aleatórias  e uma base tensa e sorrateira que fica cheia de energia no meio. O final lembra bastante o mezzo shoegaze do The Horrors.

Quanto às letras, os músicos quiseram fazer algo pessoal e reflexivo, que refletisse os sentimentos de dentro e fora da estrada. Chegaram a dizer que tratava sobre morte, divórcio, depressão e drogas, mas também sobre nascimento, amor e casamento. O título “Delta” representa a transição do seguro para o desconhecido, sensação que eles experimentam sempre que saem do seio da família para as turnês. Essa transição foi bem transcrita para o som do álbum, com essas várias mudanças de dinâmica que partem do folk simples, o familiar, para a elevação catártica de energia, o desconhecido.

Delta não é um disco pop, mas se apoia na candura, na introspectividade e beleza de suas composições. As instrumentações sempre suaves e esparsas reforçam o poder das melodias que fluem livremente por nossas cabeças durante o play. É possível notar alguns delírios eletrônicos, mas muito diluídos, assim como as referências ao folk explícito, que flertava com o bluegrass de Babel (2012). O disco, portanto, tem sua própria mensagem e sua própria maneira de dizer o que quer.

Li em algum lugar que o disco novo representava uma continuação daquilo que Wilder Mind tinha começado; no entanto, essa observação não poderia estar mais equivocada. Delta funciona justamente por tentar ser uma negação da grandeza do anterior, do início ao fim, preferindo o quieto e o escondido ao exposto e barulhento. Mesmo que a banda explore momentos de mais volume, isso é feito com apoio em reverberação expressiva e ruidosa, e não em guitarras fortes e definidas — o que realça o clima introspectivo.

Demorei a entender o que o M&S quis fazer em Delta, mas assim que compreendi a relação com canções mais antigas, ficou claro. O novo álbum acalma as coisas e define uma estabilidade que pode ajudar a banda a escolher o caminho a trilhar daqui para frente, sem turbulências ou mudanças bruscas. Resta acompanhar. Até agora tem sido bem interessante.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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