“Origins” é o Imagine Dragons no piloto automático

Imagine Dragons – Origins (2018)

Por Gabriel Sacramento

Sempre digo que existe uma barreira entre o ouvinte e todo álbum que ele se dispõe a ouvir. Essa barreira não é intransponível, evidentemente, pois ela é derrubada sempre que os artistas/bandas manipulam bem nossas emoções e se conectam conosco de uma forma mais próxima. Seja com uma abordagem emocional ou com uma abordagem mais agressiva e pesada, é possível, sim, vencê-la. Às vezes, as bandas precisam de várias faixas, outras vezes, de apenas alguns minutos. O que importa é conquistar o interlocutor.

E essa é uma dificuldade que Origins, novo trabalho da banda americana Imagine Dragons, tem e mantém até o final do play. Produzido por uma série de nomes, como Alex Da Kid e John Hill, o disco não tem pretensão nenhuma além de prosseguir apostando nas mesmas fichas do pop rock dos últimos lançamentos. Até então, isso tem dado certo comercialmente, pois levou a banda ao status de grande renome mundial. Mas e a consistência sonora?

Ok, vamos admitir que a produção do álbum acerta em algumas escolhas. Os produtores optam por priorizar uma instrumentação minimalista, sem grandes detalhes concorrentes com a voz de Dan Reynolds, e investem uma mixagem climática e esparsa, cheia de reverb. Até aí, tudo bem. O problema começa quando analisamos as composições em si, que são tão líquidas quanto um cubo de gelo a 50 graus Celsius. As melodias são bem cafonas e os ganchos melódicos são batidos e pouco inspirados, daqueles que são inseridos meramente para gerar coros nos shows e para grudar na cabeça dos ouvintes. (nota do editor: uma das músicas até conseguiu grudar na minha cabeça!)

Mesmo quando Dan Reynolds, cuja voz soa quase sempre encharcada de efeitos nada naturais, aposta em uma veia mais agressiva, o disco não consegue, de jeito algum, emplacar energia. Dito isso, preciso ressaltar que o único ponto positivo é justamente “Natural”, faixa que abre o disco, por causa, principalmente, da performance de Reynolds, com uma voz que trabalha bem angústia e contrição e explora a dicotomia fragilidade-força no refrão.

Mais uma vez, o Imagine Dragons entrega um disco insosso, que venderá horrores e será gritado desesperadamente pelos fãs nos shows, inclusive no Rock in Rio 2019, no qual a banda irá se apresentar com bandas como Muse, que tem um disco novo curioso, Iron Maiden e Scorpions. Totalmente entregues à condição de popstars, eles se recusam a sair da fórmula e deixam o conforto pisotear — e esmagar — o talento. Imagino que, em setembro no Rio, teremos um show tão chato quanto o do Walk The Moon na edição de 2017.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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