O álbum branco dos Beatles completa 50 anos

The Beatles – The Beatles (1968)

Por Gabriel Sacramento

Depois de chocar o mundo com a inventividade e o experimentalismo de Sgt Peppers Lonely Hearts Club’s Band (1967), o quarteto de Liverpool se uniu para mais uma empreitada. Aliás, o termo união é bem complicado quando aplicado àquele período em que as coisas estavam começando a ficar tensas no meio do grupo. Uma sequência de brigas e desentendimentos que levou ao fim em 1970. O disco, no entanto, refletiu pouco essa desunião.

Produzido mais uma vez por George Martin, envolveu na engenharia nomes como Geoff Emerick, engenheiro da banda desde o Revolver (1966), Ken Scott e Barry Sheffield. O disco é duplo e possui 30 músicas, uma verdadeira overdose da banda. Tempos depois, o próprio George Martin chegou a dizer que a banda deveria ter lançado menos faixas.

O grande mérito de Martin no cargo de produtor foi o de conseguir um resultado que concilia muito bem os muitos universos que existiam nas mentes dos músicos. Como os anteriores, The Beatles explora uma série de elementos de gêneros e subgêneros diferentes, todos desenvolvidos de forma independente e plenamente convincentes. Martin conseguiu desenvolver duas características especialmente contrastantes: uma candura espetacularmente gentil e sedutora e uma energia guitarreira que beira ao caos e à irreverência. Esses dois aspectos não conversam entre si, se mantêm separados, mas ambos fazem o álbum ser particularmente marcante.

É fácil perceber isso quando a gente compara faixas como “Mother Nature’s Son” e “Helter Skelter”, ambas cantadas pelo Paul McCartney. A primeira é calma e calcada no violão, em um clima de natureza, tranquilidade e estabilidade. Em momentos como esses, o talento de McCartney como compositor é realçado: a beleza dos contornos harmônicos e das guinadas melódicas da canção conduzem o ouvinte para essa plena sensação de paz. Já “Helter Skelter” é aquela que considero a música mais pesada da banda: caótica e guitarreira, com Paul gritando seus agudos e expulsando as notas de sua garganta furiosamente. A forma como a melodia vocal segue uma ascendente contribui para a criação de tensão e concentração de energia, que logo depois ganha uma liberação catártica em acordes abertos que parecem livrar das correntes toda a distorção acumulada.

 

Outro grande destaque da concepção do álbum é o fato do tracklist ter sido organizado para guiar o ouvinte em uma jornada com etapas específicas e bem definidas. Explico. O começo com a irreverente “Back In The U.S.S.R.” introduz uma veia mais roqueira e nada muito séria. Ao longo do primeiro disco, o que prevalece é uma musicalidade mais calma e tranquila que descamba na belíssima “Julia”, que evidencia o grande talento de Lennon para melodias também. O segundo disco, por sua vez, começa com um rock empolgante, “Birthday”, e segue majoritariamente guitarreiro e experimental até o fim com “Good Night”. Em suma: o ouvinte começa sentindo uma grande concentração de energia, descansa, depois ganha mais porções de eletricidade até o final, que é bem louco e avant-garde.

Boa parte das canções foram escritas em uma viagem da banda para um curso de meditação na Índia, o que influenciou várias letras, como a de “Sexy Sadie”. Essa viagem, inclusive, já tinha marcado algumas farpas que vinham a ser transferidas para o estúdio, comprometendo o ambiente e levando até à saída do engenheiro Geoff Emerick — decisão que ele conta em detalhes no seu ótimo livro Here, There and Everywhere: Minha Vida Gravando os Beatles. Os efeitos dessa viagem podem ser percebidos também nesse tom singelo de muitas canções que entraram no álbum.

As letras abriram mão de um tom mais sério e comprometido, mesmo em meio às questões efervescentes que estavam em voga na época. A própria “Back In The U.S.S.R.” é uma ótima sátira que contrasta com “Back In The U.S.A.” do Chuck Berry, sendo que “U.S.R.R.” era a sigla em inglês para a União Soviética. “The Continuing Story of Bungalow Bill” é uma canção satírica sobre um jovem que visitou o mesmo lugar que eles na Índia. Já “Glass Onion” brinca com o fato de que muitas pessoas acreditavam que eles colocavam mensagens escondidas nas faixas.

“While My Guitar Gently Weeps”, escrita e cantada por Harrison, marca a presença de Eric Clapton na guitarra, um crossover fantástico. A faixa é uma das mais marcantes da história do grupo, com uma melodia melancólica e doce ao mesmo tempo e uma instrumentação eficaz. O baixo de McCartney fornece a solidez necessária, mas também intervém no arranjo sempre que pode com melodias agradáveis e cativantes. Outras canções memoráveis do tracklist são: “Revolution 1”, “Dear Prudence” e “Blackbird”.

The Beatles contém uma faceta mais voltada para a guitarra como nunca a banda tinha abordado o instrumento. As seis cordas chamam o foco para si e cooperam ativamente com os arranjos, com riffs empolgantes que funcionam como motivos para as músicas. “Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey”, por exemplo, evidencia como a guitarra conduzia os arranjos: estabelecendo as mudanças de seção e os riffs principais. Já “Helter Skelter” foi escrita pelo McCartney para soar o mais alto e sujo possível. E sua veia focada na guitarra e na riffaria bebe um pouco da onda do blues rock que infestava a Inglaterra e o mundo na época — Jimi Hendrix e o Cream eram ativos —, mas também influenciou o que mais tarde viria a ser o Heavy Metal. Ou seja, mais uma contribuição dos Beatles para a música mundial. 

Curiosamente, o disco foi um dos últimos que a banda gravaria como um grupo, sendo que apenas 16 das 30 foram gravadas por todos os membros. Pode ser entendido como o primeiro que realmente sinalizou que algo estava indo mal nas relações entre os músicos, que costumavam, inclusive, gravar separados em estúdios diferentes, focando nas suas canções independentemente do que os outros escreviam. No entanto, serviu como uma boa reação da banda à onda roqueira da época, bem como uma boa reafirmação das características que sempre foram a marca sonora registrada. Apesar de tudo, um disco a ser lembrado.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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