O soul comovente de Charles Bradley em “Black Velvet”

Charles Bradley – Black Velvet (2018)

Por Gabriel Sacramento

Dono de uma voz inconfundível, um estilo de cantar diferenciado, uma história inspiradora e discos brilhantes. Charles Bradley foi um dos melhores fenômenos da nossa música nessa década, e isso fica plenamente evidente quando consideramos todos os seus discos lançados como um todo. Um revivalista do soul, mas um dos mais honestos de todos, que realmente vivia as letras que cantava e emocionava o ouvinte em cada interpretação. Cantar um gênero antigo para ele não era surfar na onda, mas, sim, a melhor forma que encontrou de expor seus anseios, desejos e fraquezas para os ouvintes. Infelizmente, ele nos deixou no ano passado, mas deixou algumas canções gravadas que viraram o Black Velvet (cujo nome faz referência ao seu projeto de imitação do James Brown, de antes da carreira solo).

A compilação do trabalho, bem como a mixagem, foi feita pelo seu produtor Thomas Brenneck, que produziu todos os outros álbuns do cantor. Brenneck tem um histórico bem interessante: tocou no Dap Kings com a Sharon Jones, no sensacional Back To Black (2006), da Amy Winehouse, e no Uptown Special (2014), do Mark Ronson. Além disso, Brenneck foi o cara escolhido pelo Black Lips para conseguir um som mais limpo e focado nas melodias no bom Underneath The Rainbow (2014). Ou seja, além de um bom currículo com bons discos, Thomas é um especialista em música old-school e fez parte do começo dessa onda de diálogo do soul clássico com o pop moderno.

Foto: Rich Fury

Brenneck sempre soube fazer duas coisas muito bem: primeiro, desenvolver uma estética totalmente voltada ao passado, com timbres, cores e climas de discos setentistas/sessentistas; e segundo, engrandecer a persona do Bradley e abusar de seus trejeitos. E é justamente isso que temos de sobra em Black Velvet: timbres escuros, uma veia meio melancólica com alguns momentos mais abertos, clima de soul clássico e um vozeirão conduzindo as faixas do seu jeito. No meio de tudo, a mix destaca bem o baixo, com menos volume e mais definição, e os metais.

Bradley possui seu estilão marcante de cantar que o destaca e faz sua música ainda mais interessante. Ele sempre pronuncia as palavras com bastante ênfase, de forma lenta, se preocupando em colocar a quantidade correta de emoção em cada emissão de ar. Em muitos momentos, sua interpretação soa dramática demais, mas até mesmo o excesso favorece. A lentidão e as características típicas da idade avançada na voz contrastam fortemente com a agilidade da instrumentação ao fundo, o que destaca ainda mais a voz.

Além do que já foi mencionado, Brenneck também acerta em impor um certo clima hipnótico e levemente psicodélico em alguns momentos do disco. “(I Hope You Find) The Good Life” é marcada por isso, com uma linha de baixo forte, tocada com uma leveza impressionante — em um estilo que lembra as linhas enfáticas e hipnóticas do James Jamerson nos discos do Marvin Gaye — , e um estilo mais confessional de cantar do Bradley, misturando falas com canto, como se estivesse conversando diretamente com o ouvinte. A canção segue sutil e sorrateira, como se fosse virar algo maior, quando na verdade permanece na mesma tensão o tempo todo.

Em termos de tracklist, os grandes destaques são (novamente) os covers. Bradley tinha conquistado muita atenção já em 2016, com sua icônica versão de “Changes”, do Black Sabbath. Dessa vez, Brenneck resgatou dois covers gravados no começo da carreira, quando o cantor ainda não tinha ganhado tanta projeção, “Stay Away”, do Nirvana, e “Heart of Gold”, do Neil Young.

Foto: Rick Mandonik

Vale destacar “Stay Away”, que é marcada pela construção de clima que mencionei no penúltimo parágrafo, começando com um riff de bateria que acena para a versão original, uma das poucas coisas em que as duas se assemelham. Uma guitarra meio creepy em um dos lados do espectro acompanha o baixo pontual, enquanto Bradley declama a letra de Cobain com sua interpretação fortemente emocional e cativante. O refrão vira algo novo na voz dele, destacado ainda mais o cover.

Black Velvet chega ao fim com seu passaporte comprado para as listas de melhores do ano. Um disco que rejeita qualquer tipo de invencionismo, se preocupando apenas em reorganizar elementos já conhecidos, mas, ainda assim, envolve totalmente e arranca vários sorrisos sinceros do interlocutor. E quando ouvimos a faixa-título, esperando que a voz do Charles entre em algum momento, e somos frustrados pelo fato de ser uma canção instrumental, é como se sentíssemos o vazio que sentimos na música no geral desde setembro de 2017, quando esse brilhante artista nos deixou. Restam as lágrimas.  

 

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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