“Simulation Theory” é o Oasis do Muse

Muse – Simulation Theory (2018)

Por Gabriel Sacramento

O Muse é um dos grupos mais autorais e interessantes dos nossos tempos. Investindo uma linguagem desafiadora que mistura o moderno e o clássico, teorias da conspiração e temas distópicos, lendo a realidade, ao mesmo tempo em que a desconstrói, eles seguem mantendo um nível impactante a cada lançamento, surpreendendo os ouvintes. O estilo deles é único, o que os destaca de todo o resto no cenário roqueiro contemporâneo, cena que eles nem mesmo se esforçam para continuar inseridos. Embora estejam além das regras estritas do rock contemporâneo, eles lutam para se desprenderem das regras que criaram para si mesmos, muletas criativas que podem facilmente se tornar cordas apertadas nos pescoços dos compositores. 

Drones, de 2015, foi um ótimo álbum, e um alívio para os fãs mais xiitas depois de 2nd Law, no qual a banda patinou em uns terrenos estranhos, explorando ainda mais do seu lado eletrônico. O álbum de 2015 recuperou um certo vigor guitarreiro dos primeiros álbuns e empolgou os ouvintes antigos acerca do futuro.

Mas o novo álbum é bem diferente do anterior e resgata a linguagem focada no eletrônico de outrora. Na produção, o trio contou com nomes como Rich Costey, grande produtor do cenário indie, e Timbaland. Se em Drones, a presença de Robert “Mutt” Lange ajudou a moldar as coisas e a recuperar um feel roqueiro mais linear, Simulation Theory embarca em um universo de experimentação sem precedentes. Bellamy, Howard e Wolstenholme conceberam um produto hermético, cheio de referências específicas, com um grande desafio pela frente: convencer os ouvintes a comprar o óculos de VR e ingressar nesse universo sem temer o que vem pela frente. 

O conceito e o storytelling do álbum são bem definidos: versa sobre a ideia de realidades simuladas, mentiras contadas como se fossem verdades (fake news?), ideias que se espalham como vírus (alô, Richards Dawkins), com uma forte influência de ficção científica e cultura pop, que ficaram claros nas artes visuais e nos clipes. Os produtores encaram de frente o conceito e optam por uma musicalidade fortemente artificial, focada nos sintetizadores, ao invés das guitarras e baixos, mas com uma leve diferença: a construção do clima de trilha de sci-fi parece bem mais importante do que os elementos específicos dos arranjos, e os timbres ganham mais importância do que as ideias harmônico-melódicas. Essa construção, vale destacar, se dá de forma lenta e sem pressa, sem aquelas grandes expansões sonoras que marcaram o Drones. Os riffs facilmente passam despercebidos pelo nosso radar, ao passo que toda a estranheza da atmosfera nos envolve completamente. Então, se você é fã de riffs como os “Hysteria” e “Psycho”, essa é a primeira má notícia.

“Algorithm” abre o disco com temática tecnológica, que mistura possibilidades reais com um quê conspiratório. O arranjo mistura um synth viajante com um piano solene, na melhor definição do mix moderno-clássico que citei no primeiro parágrafo, e cresce lentamente, com foco na cadência e no efeito dos acordes. “Propaganda” é uma das mais intensas e impressiona por ser esquisita e estranhamente eletrônica, com algumas escolhas inusitadas, como o fato de um violão surgir aqui e acolá. “Blockades” mantém um clima retrofuturista, quase como um encontro entre bandas oitentistas de synthpop e o estilão clássico do próprio Muse.

O único ponto negativo a ser destacado no tracklist é “Something Human”, uma faixa simplória em termos composicionais e que se encontra totalmente deslocada do contexto do álbum. Várias faixas lançadas anteriormente fazem pleno sentido dentro do todo, como “Dig Down”, mas “Something Human”, que sucede a louca “Break It To Me”, não consegue nada além de distrair o ouvinte.

A letra de “Pressure” é sobre a própria banda e a relação com os ouvintes — uma espécie de desabafo da banda diante da pressão para que eles mantenham a marca sonora dos “tempos de ouro”. (Quase como quando o Stephen King escreveu “Misery”, um romance em que o escritor se encontra confinado com uma fã e tem que obedecer suas ordens para viver.) Isso diz muito sobre a música do Muse e a relação deles com o público. Mas a julgar pelo que ouvimos em Simulation Theory, eles parecem bem confortáveis em desagradar boa parte dos ouvintes. Ah, e o clipe dessa faixa com referência à icônica cena do baile de “De Volta Para o Futuro” é divertidíssimo.

Se em “Jogador Número 1”, filme desse ano dirigido pelo Steven Spielberg e baseado na obra de Ernest Cline, o “Oasis” é o refúgio de muita gente diante da realidade sufocante e distópica em que vivem, a experimentação sônica é o Oasis do Muse. Para longe de toda pressão que sofrem, e que todos artistas sofrem no geral, eles se escondem sob a redoma da ilimitada fecundidade sonora e sob as estratégias de tentativa-erro, na busca por resultados inusitados e imprevisíveis. Utilizando o estúdio e seus recursos como aliados, como em laboratório de testes, de vez em quando eles conseguem convencer de que a realidade paralela é mesmo a real.

Musicalmente, os elementos que caracterizam o som da banda ainda estão lá: os acordes diminutos, os acordes aumentados, o uso extensivo de acordes dominantes, os recursos de produção, entre outros. Liricamente, eles conseguem inserir um pouco mais de positividade contrariando o tom mais obscuro dos últimos registros. Simulation Theory consegue se vender como um disco de forte conceito e escolhas de produção e composição que favorecem a proposta. E mesmo depois de tirar o óculos de VR, o disco continua fazendo pleno sentido. William Gibson e Philip K. Dick adorariam ouvir isso.

 

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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