Em “Honey”, Robyn surpreende ao surpreender

Robyn – Honey (2018)

Por Gabriel Sacramento

Quando a gente pensa que a Robyn não vai mais surpreender, ela supera expectativas. Depois de ter anunciado uma mudança na musicalidade, daquele estilo orientado a uma forma de R&B bem datada para um pop fortemente eletrônico e contemporâneo, a cantora sueca impressionou meio mundo com um super disco que fez bastante sucesso de crítica e também de público em 2010, Body Talk. Desde então, ela parecia estar presa nessa era iniciada pelo álbum, mas precisava de algo mais sincero e honesto que refletisse os novos tempos. Daí veio Honey.

Durante esses anos, ela apareceu no meu player com a participação sensacional em Summer 08 (2016) do Metronomy, cantando “Hang Me Out To Dry”, uma das melhores canções daquele já longínquo lançamento. A canção trazia o frescor do eletropop que enfatiza sintetizadores e o poder da instrumentação, ao mesmo tempo em que explorava ao máximo a força de melodias, que, agressivamente, invadem sua mente e se recusam a sair.

Produzido por vários nomes, Honey é uma ótima continuação de Body Talk, principalmente porque vai em uma direção totalmente diferente, enriquecendo ainda mais o catálogo da competente cantora. No time de produtores envolvidos, tem Joseph Mount, o chefe do Metronomy, Adam Bainbridge, Mr. Tophat, entre outros, mas nada de Max Martin, por exemplo. Isso já diz muito sobre o disco: mais introspectivo e menos festeiro, com menos pretensão e menos desejo de ser popular. Isso se deve ao fato de que Robyn passou por alguns desafios complexos durante os últimos anos, que a motivou a escrever essas canções: morte de um grande amigo em 2014 e um traumático divórcio.

O foco do disco é desenvolver climas que envolvem o ouvinte e o mantém totalmente imerso até o fim. Os arranjos são esparsos, sempre nos deixando com a sensação de que há instrumentos faltando para preencher. O minimalismo instrumental favorece a voz da Robyn e suas melodias e interpretações focadas que trabalham bem a sensualidade e uma certa fragilidade convincente. Mesmo com toda essa descrição, você pode dar o play no disco e achar que estou plenamente enganado, afinal, “Missing U” começa com um synth cheio de notas que parece uma reencarnação daquele de “Baba O’Riley” do The Who e um clima uptempo com melodias ganchudas e pop até o osso. O refrão dessa faixa é como aquele tipo de produto que você não encontra na vitrine da loja, mas só depois de procurar muito, e que te agrada instantaneamente. Perceba como a faixa sempre se mantém segura e estável, sem explodir.

No entanto, não, eu não estou enganado. Esse foi o truque da Robyn e seus produtores: conquistar o ouvinte na entrada com um pouco do que é familiar — uma sonoridade mais alegre, mesmo que contida — e depois avançar para o real significado do disco. “Because It’s In The Music” traz escolhas acertadíssimas que reforçam a força do refrão, enquanto constroem uma solidez interessante na base. Destaque para a melodia que surge no refrão contraponto-se à que Robyn canta, em uma estratégia para complementar e competir, mas na verdade fortalece todo o trecho e torna ainda mais memorável. Uma aula de como fazer um bom refrão, afinal. “Beach2k20” é bem experimental e diferentona, enquanto “Ever Again” é a única que satisfaz nosso senso de “banda”, com um clima que lembra inclusive o disco do Metronomy supracitado.

Com uma mixagem que explora muito a profundidade dos beats — como se convidasse o ouvinte para dentro do espectro — e mantém os elementos pontuais e espaços vazios, Robyn consegue expandir sua sonoridade, nos mostrar um pouquinho do que está em sua cabeça no momento, enquanto olha para o próprio passado com respeito. Em alguns momentos, é impossível não lembrar de discos como Robyn’s Here (1995), mesmo que esse estilo apareça bem repaginado. A cantora transita entre uma veia mais dançante e uma mais atmosférica, sem nunca parecer pertencer a nenhuma cena ou gênero bem definido.

Honey é um grito da cantora por atenção, depois de oito anos do último álbum. Mas, calma, não é um grito desesperado e birrento de alguém que não faz mais nada relevante, e, sim, uma ênfase no que já tinha sido anunciado e deixado claro acerca dela e de sua carreira: cada passo é muito bem dado, e dessa forma, tem sido difícil errar. Acima de tudo, mais uma vez Robyn mostra como se mistura eletrônico com pop, maximizando ambas as dimensões. 

Foto: Philip Cosores

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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