O Greta Van Fleet finalmente soa mais maduro e convincente

Greta Van Fleet – Anthem of The Peaceful Army (2018)

Por Gabriel Sacramento

Se antes o Greta Van Fleet atraía muitos ouvintes e admiradores encucados somente com o fato de que eles parecem muito o Led Zeppelin, Anthem of the Peaceful Army, primeiro disco completo deles, anuncia um novo momento. De fato, eles continuam parecidos com o quarteto inglês, seja na atitude, no som e nas escolhas de produção, mas o disco que acabou de sair prova que eles têm potencial de serem maiores que isso. De certa forma, a banda consegue agora os requisitos para competir com outros “zeppelins” como Rival Sons e Wolfmother.

Inclusive, foi isso que previ no podcast que fizemos sobre o tema: que a banda com o tempo acharia a própria voz, desenvolveria um modus operandi próprio e sairiam da sombra de outros grupos. Anthem foi produzido por Al Sutton, Marlon Young e Herschel Boone, os mesmos que trabalharam no EP anterior, From The Fires.

E se o EP falhou em explorar os próprios pontos fortes do grupo, Anthem engrandece tudo isso para o bem da proposta. A produção enfatiza uma sonoridade seca na mixagem, sem grandes alterações de pós-produção e efeitos, que deixa evidente o poder das performances. A agressividade e a energia são derivadas das interpretações dos músicos, que trabalham bem o tom para cada momento dos arranjos, como em um bom disco de heavy rock que olha para o passado como um grande conselheiro.

A melhor faixa do álbum, “When The Curtain Falls”, deixa claro como eles acertaram a mão e conseguiram algo que sempre é invejável para músicos e compositores: fazer com que o momento mais marcante da canção seja o refrão com o nome da música, o que favorece bastante para que o ouvinte lembre depois. Além disso, o arranjo abusa da força dos ataques vocais de Josh Kiszka, que impulsionam a música como um motor mesmo. O foco não está nos riffs em específico, mas sim no efeito que as distorções e as performances fortes geram.

No resto do álbum, a banda segue explorando elementos de heavy rock, mas mistura com momentos de candura mais folk também. No entanto, mesmo em momentos mais palatáveis, não abrem mão da crueza no som e nas soluções que são reduzidas somente às opções óbvias de instrumentação: violão/guitarra, baixo e bateria. A personalidade é muito forte e a forma como eles respeitam isso é marcante.

A produção consegue explorar muito bem a agressividade nos agudos do vocalista Josh, mas também dá espaço para os outros músicos. O baixista Sam se destaca aproveitando os espaços vazios com o seu potente Fender Precision Bass e um timbre mais rouco e forte. Já o baterista Danny Wagner brinca com viradas complexas que abrangem todo o kit, referenciando John Bonham e Neil Peart. Na guitarra, o Jake dobra muito bem, fortalecendo a base e seguindo uma linha mais livre e solta.

Se o grupo precisava de um disco para ser levado a sério e gerar interesse para suas particularidades, agora eles têm. No entanto, não é uma mudança de 360 graus no que já vinham fazendo, o que pode desagradar muitos ouvintes. Mas a tendência é que eles adquiram ainda mais autoralidade com o tempo, com a experiência e com os resultados. Vamos esperar para ouvir.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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