Kurt Vile, “Bottle It In” e o poder dos dedilhados

Kurt Vile – Bottle It In (2018)

Por Gabriel Sacramento

Dedilhar um instrumento é a arte de executar notas de um acorde na sequência hierárquica deste. Com dedilhados, artistas facilmente podem confundir o ouvinte com relação às dimensões harmônicas e melódicas de um arranjo, afinal, as notas ganham um destaque especial, como se fossem uma melodia mesmo. No entanto, eles, ao fundir essas dimensões, conseguem uma nova forma de realçar o clima e o aspecto intimista das canções, daí, a preferência dos dedilhados no folk, por exemplo. Ao dedilhar lentamente um acorde e martelar em nossas cabeças, o artista convida o ouvinte a entender a construção da harmonia daquela composição e a compreender a função de cada nota dentro daquela harmonia. Dito tudo isso, vamos à constatação: Kurt Vile usa e abusa do poder dos dedilhados em seu novo disco.

Depois de ouvir Bottle It In várias vezes, cheguei a conclusão de que é difícil analisar o que Kurt Vile trouxe dessa vez. Primeiro, porque o cantor resolveu transcender a noção de gêneros e a própria linearidade do que vinha lançando nos últimos anos e embarcar em uma viagem psicodélica regada à ácido, meio sessentista, mas à sua maneira. É difícil rotular o que o americano conseguiu, mas tentarei dissecar a proposta nessas linhas.

O disco foi produzido por diversos nomes como Shawn Everett, Rob Laakso e Peter Katis. Já é o oitavo disco solo do artista, desde que deixou o War On Drugs, e mostra que ele vem conquistando uma porcentagem expressiva de personalidade a cada lançamento. Mas mais do que isso: Vile segue seguro como um artista que pretende recusar os clichês do indie folk e incorpora elementos específicos de outros estilos e outras referências que só engrandecem sua proposta.

“Bassackwards” mostra como a produção acertou ao investir no clima das canções, na tranquilidade e estabilidade dos dedilhados e no estilo relaxado de cantar do Kurt, que declama as letras como quem acabou de acordar mesmo, sem aquecimento prévio, nem maquiagem e nem máscaras. A produção não hesita em utilizar camadas de reverberação que deixam o disco denso e cheio como na própria base de “Bassackwards”. Os arranjos são lentos, desenvolvidos com cuidado, sem muito dinamismo e com um grande respeito pelas seções exclusivas de instrumentação.

“Rolling With The Flow” parece alguma música pop de décadas atrás, que foi encontrada por acaso pelo músico antes de começar a gravar. “Check Baby” demonstra o poder de fogo das escolhas ousadas da produção: eletronicidades entrelaçadas com uma guitarrinha rock enrustida que vai ganhando asas aos poucos, uma bateria firme e, claro, dedilhados e mais dedilhados.

Em “Skinny Mini”, a retórica do disco atinge o seu auge. Isso porque com apenas um dedilhado simples de guitarra, vozes que entram e saem e um arranjo fluído orientado ao timbre das seis cordas, Vile consegue captar a total atenção do ouvinte e comprar nosso investimento. A estrutura é errática: Kurt surge recitando algumas palavras, meio que de forma aleatória, enquanto o dedilhado segue firme. A faixa dura dez minutos, o que pode ser cansativo para alguns ouvintes, mas é o necessário para que percebamos que a intenção é fazer o ouvinte estar totalmente envolvido dentro da atmosfera que eles criaram no estúdio. A faixa-título também dura surpreendentes dez minutos, com o mesmo desapego ao cuidado excessivo com a estrutura.

Depois do Lotta Sea Lice com a Courtney Barnett, disco que falhou em exaltar os dois músicos envolvidos, Kurt Vile consegue um resultado acima da sua média e acima da média geral da cena em que está inserido. Ao lançar de mão de estratégias inusitadas para construir suas canções e um desleixo proposital com relação ao que pode ser considerado palatável no folk, Vile indiretamente ironiza a necessidade de se curvar ao que é fácil para transmitir significado dentro do universo do gênero.

Bottle It In também exalta o poder dos dedilhados na construção de climas estáveis e de muralhas atmosféricas. Ao final de mais uma audição e desse texto, sigo achando que a tarefa de definir esse disco é complexa demais, sendo que a experiência de ouví-lo é algo mais fácil de compreender. Um salto altíssimo na carreira do americano, que vai exigir um pouco mais do ouvinte para entender e apreciar.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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