“The Atlas Underground” é Tom Morello como nunca ouvimos

Tom Morello – The Atlas Underground

Por Gabriel Sacramento

The Atlas Underground é mais um projeto ambicioso de um cara que parece não descansar. Depois do Rage Against The Machine e Audioslave, Morello surgiu com alguns ideias para um projeto solo como o Nightwatchman, que tinha uma veia de folk político, e tocou na banda do Bruce Springsteen. Depois de tudo isso, ele surgiu com uma parceria com Chuck D, DJ Lord e B-Real e seus amigos do RATM/Audioslave, o Prophets of Rage, cujo disco homônimo de estreia é bem interessante.

Para o novo disco, Morello resolveu contratar uma equipe de artistas dos mais diferentes gêneros: Vic Mensa, K Flay, Killer Mike, Marcus Mumford e Gary Clark Jr. são alguns dos nomes. Confesso que fiquei bem curioso e um tanto receoso quando vi as participações. Mas, felizmente, Morello e seu time de produtores conseguiram manter um nível altíssimo e impressionar o ouvinte em cada vírgula sonora e lírica do disco.

Morello é bastante conhecido por seu ativismo político expressivo e engajado, por acoplar mensagens relevantes à parte traseira de sua guitarra, mas também por sua musicalidade inconfundível. Seus solos esquisitos, que abusam de efeitos e pedais diferentes, muitas vezes propositalmente fora do contexto das faixas, junto com seus riffs secos e simples, que definiram a cara do som do Audioslave e do RATM em outros verões. The Atlas Underground mantém um respeito muito grande pelas características típicas do músico, enquanto navega por um universo que até então não tinha sido explorado: a EDM.

Isso mesmo, EDM. Morello abusa de sintetizadores, beats eletrônicos e drops bem loucos. Nesse contexto, ele consegue inserir muito bem seus timbres esquizofrênicos de guitarra e tudo faz pleno sentido. A produção consegue explorar uma força enérgica e agressiva dos riffs eletrônicos que dialoga com a força típica dos riffs abafados e mixa as duas referências, processando para construir uma criatura própria, única, com partes de cada gênero diluídas entre si. O eletrônico se conecta perfeita com o rock, com arranjos que manipulam o ouvinte muito bem. Em alguns momentos, a produção trabalha estabilidade, enquanto em outros, busca surpreender o ouvinte com viradas inesperadas. (o que melhor que um drop para isso?)

Foto: Paul R. Giunta

Os riffs do guitarrista são a base e também os motivos das faixas. Assumem uma função estratégica central, como nunca tinham assumido em qualquer outro projeto mais roqueiro do cara. Já os nomes contratados contribuem ativamente para o disco, com cada um deixando um pouco de seu toque particular.  

Uma faixa como “How Long”, por exemplo, é surpreendente que esteja no catálogo de um cara como o Morello. Totalmente moderna e entregue aos delírios eletrônicos da EDM popular dos nossos tempos. A faixa conta com Steve Aoki e Tim Mcllrath. “Where It’s At Ain’t What It Is” coloca Gary Clark Jr. em um contexto inusitado para ele, em uma veia tão dançante quanto “How Long”, e o resultado é tão bom quanto. Faixas como “Roadrunner” lembram a secura do new metal e a pegada do Prophets of Rage. A produção consegue separar minutos de foco em melodias, como na ótima “Find Another Way”, com a voz do Marcus Mumford.

Liricamente, Morello continua crítico e assertivo. Apesar de abusar do eletrônico no disco, o guitarrista busca a força expressiva do hip hop, como fez em diversos outros momentos da carreira. As letras discutem questões sempre recorrentes no rap, como brutalidade policial e a ideia falsa igualdade entre brancos e negros. Em uma das melhores linhas do disco, Vic Mensa —  sempre muito bem — manda um “não minta pra mim, os pobres vão à guerra, não existe guerra contra a pobreza”, com certeza acenando para um programa do presidente americano Lyndon Johnson, que tinha como proposta fazer guerra contra a pobreza. Em outro momento, mais calmo e melódico, o disco fala sobre depressão em uma faixa que foi feita em parceria com uma organização de prevenção ao suicídio, “Every Step That I Take”.

Ao final, percebemos que The Atlas Underground é um festival criativo de EDM, hip hop, rock e expressão de um dos guitarristas mais diferenciados da nossa geração. Ele sabe muito bem como louvar seu próprio estilo e como, a partir dele, expandir para uma musicalidade mais inclusiva e diversificada. 

 

 

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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