“Trench” do Twenty One Pilots tem uma boa narrativa e musicalidade lânguida

Twenty One Pilots – Trench (2018)

Por Gabriel Sacramento

Acho que o Twenty One Pilots é o reflexo de uma modernização do consumo de música. Por isso, não vejo eles simplesmente como uma banda, mas como uma boa representação desse fenômeno. Hoje em dia, ouvimos música por plataformas digitais, compramos indiretamente e não nos restringimos mais a gêneros como antigamente. Os jovens atualmente consomem todo tipo de coisa, do reggae ao rap e até jazz. Tudo a um clique de distância, ou melhor, a uma playlist de distância. A sensação de ter um estilo que define quem você é também é menor hoje, já que ouvimos diversas coisas diferentes, mas não nos apegamos muito a nada.

Assim, o duo formado por Tyler Joseph e Josh Dun encontra o devido espaço, afinal, eles exploram uma sonoridade que trabalha linguagens diferentes, como indie rock, reggae, rap e eletropop. Trench é o quarto trabalho do duo, depois do bem sucedido Blurryface e da música que entrou para o filme Esquadrão Suicida.

Trench é um álbum conceitual, que segue explorando alguns temas comuns na música deles. O disco conta a história de um personagem chamado Clancy que tenta fugir de uma cidade chamada Dema. Essa cidade é governada por bispos que impõem uma religião opressora e impedem que as pessoas sejam livres. Uma interpretação válida para a história é que a cidade na verdade representa doenças mentais que aprisionam as pessoas, os bispos são as manifestações de doenças como a depressão e a religião representa a mentalidade oprimida e isolada de uma pessoa nessa condição. A honestidade com que trabalham isso vem do fato de que Tyler realmente sofre e já sofreu bastante com a depressão.

Liricamente, o disco assume uma tendência extremamente séria e responsável de ajudar a elucidar um tema que merece discussão. Mas musicalmente, as escolhas de Joseph e Dun, auxiliados pelo produtor Paul Meany, servem para liquidificar ao máximo o conteúdo das letras. Faixas como “Clohrine”, por exemplo, demonstram como o duo está preocupado com ganchos melódicos fáceis e com climas felizes, mas pouco preocupado em extrair substância e corpo de suas canções. Os arranjos são lânguidos e pecam na falta de energia e no excesso de confiança em melodias e no minimalismo. Em pouco tempo, estamos próximos do tédio, mesmo com toda a força do storytelling do disco ainda impactando nossas cabeças.

A linguagem musical do disco é mais pop acessível, envolve elementos de reggae e rap como é comum, mas sem nada que impressione. Enquanto em faixas como “Jumpsuit”, eles acertam no arranjo que surpreende e levanta a empolgação do ouvinte, em outras (na maioria), eles se entregam a um padrão de condução das faixas que repete clichês estruturais que não prendem a atenção do ouvinte, pois não é nada rigorosamente inédito. Nota-se que a banda está tentando ser mais coesa em sua musicalidade, mas, com isso, sacrifica um pouco a espontaneidade que caracterizava os momentos mais malucos dos outros discos.

Ou seja, eles tentam passar a mensagem do disco investindo em drama e em melancolia, mas conseguiram como resultado um disco que carece de força. O Twenty One Pilots ainda merece mérito por representar esse novo fenômeno de bandas que se importa pouco com gêneros, mas precisa se afastar da vontade de soar palatável ou a criatividade de seus discos correrá risco de extinção.

Foto: Brad Heaton

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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