“For Ever” é o Jungle mais maduro e ainda mais autoral

Jungle – For Ever (2018)

Por Gabriel Sacramento

O Jungle evoluiu de um duo para uma banda de sete membros do auto-intitulado disco de estreia até esse novo, For Ever. Na época, já impressionaram por uma visão do R&B/soul moderna e alternativa com um frescor tipicamente europeu. Capitaneados por Tom McFarland e Josh Lloyd-Watson, o grupo segue sua cruzada rumo ao convencimento do maior número de pessoas acerca da viabilidade de um projeto sonoro fortemente autoral.

De cara, o som deles lembra o minimalismo e a sensualidade onipresente do Rhye. Mas aí, quando olhamos com as lentes devidamente limpas, percebemos que a sensualidade não é um elemento sempre presente, mas no lugar disso, há uma expansão climática, ensolarada e selvática. O disco novo, produzido por diversos nomes como Wes Oakland e Inflo, mantém essa veia.

O começo de “Smile”, com os ataques percussivos, já deixam claro que se trata de uma trilha sonora para uma jornada em alguma selva muito pouco segura. A produção desenvolve com todo cuidado um clima de tranquilidade e falta de urgência e pressa, que é refletida nas escolhas: menos densidade instrumental, fragilidade representada pelos vocais sempre falsetados e uma certa “magreza” sônica. “Cherry” é própria representação disso: a canção não tem pressa para mudar, nem para evoluir; é o desenvolvimento livre das ideias principais. O groove de “Happy Man” é gostoso e econômico, sem exageros de volume, de instrumentação, nem show-off. Pega o ouvinte de uma forma sutil e sensata. “Heavy, California” não resiste ao clima de fim de tarde, que lembra Tame Impala, mas também Calvin Harris e seu Funk Wav Bounces Vol.1.

A mixagem tem um papel estratégico dentro da produção. O uso preponderante de reverb engolindo os outros instrumentos me lembrou o IN///PARALLEL (2017) do Dhani Harrison, e o efeito em alguns momentos confere uma sensação de liquidez ao disco, como se o ouvinte estivesse completamente imerso em um oceano. “House In LA” é o ápice desse uso ativo do reverb: no meio da faixa, a experimentação toma o controle em uma sensação de sublimação musical. No geral, a mix abre mão de peso nos instrumentos, deixando com que eles estejam mais livres para fluir dentro do espectro, com mais leveza para isso. É um trabalho que foca em uma instrumentação distante, como se o espectro fosse um Grand Canyon e os elementos da mix estivessem jogados lá. Flerta ainda com uma veia lo-fi, de pouco tratamento e preferência por menos volume. Um dos creditados pela mix é David Wrench, conhecido pelo ótimo trabalho com o Sampha em Process e pela mixagem espetacular de I See You, do XX, uma das melhores de 2017.

O fato da mixagem apresentar essas características faz a proposta do disco ser ainda mais curiosa: afinal, se trata de um disco de R&B/soul, que brinca com elementos de funk e disco music. Esses gêneros são marcados por mixagens fortes com instrumentações marcantes e pulsantes para gerar ritmo e impacto: justamente o contrário da estratégia do Jungle aqui. A produção consegue atingir um nível de genialidade incrível ao dizer uma coisa com os arranjos e com a composição em si, mas negar isso com a mixagem. A produção ainda consegue misturar um aspecto despretensioso e experimental com um quê palatável, que faz o disco ser polivalente. Ou seja, impõe a personalidade da banda ao mesmo tempo em que extrai beleza das faixas.

Estamos diante de um dos discos mais fortes do ano, sem dúvidas. Os acertos se acumulam e fazem o poder do convencimento tender ao máximo. Vida longa a esse projeto.

Foto: Charlie Di Placido

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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