Joe Bonamassa mantém o alto nível em “Redemption”

Joe Bonamassa – Redemption (2018)

Por Gabriel Sacramento

Esse ano, quando resenhei o Please Don’t Be Dead do Fantastic Negrito, falei da revolução do blues que o artista propõe, impondo uma mudança nas estruturas e na lógica do gênero, que é tão comum e familiar para os ouvintes. Outro que faz isso muito bem é o Joe Bonamassa, guitarrista que chega ao seu décimo-terceiro trabalho solo, Redemption. Ao longo desses álbuns, é notável uma evolução do artista no sentido de deixar as estruturas engessadas do blues e partir para algo cada vez mais original, um mundo cada vez mais particular em que o artista se diverte enquanto dita as regras.

É claro que quando uso o termo “revolução” nesse contexto, não me refiro a algo que irá alterar estruturas e abalar o resto do universo musical como um todo. Afinal, o blues influenciou toda a música popular, mas hoje o poder de convencimento do gênero ainda é baixo e muitos artistas se restringem a um nicho. Em outras palavras, não é algo que irá mudar o mundo.

Bonamassa tem trabalhado bastante para mudar isso: chegar a um público maior, sem precisar abrir mão do que está impregnado em seu DNA. Em 2010, o seu produtor, Kevin Shirley, já falava em trabalhar o som do Bonamassa para expandir as referências e não limitá-lo somente ao estilo “guitarrista blues solo”. Em Redemption, vemos as últimas consequências disso com muita facilidade. Shirley, que guiou o Iron Maiden por caminhos mais progressivos nos últimos discos e ajudou a moldar a identidade marcante do Black Country Communion, consegue explorar uma sonoridade intrigante, que é basicamente blueseira até o talo, mas sem aludir a elementos óbvios. Isso se reflete nas soluções que envolvem instrumentos de metal, por exemplo, em faixas como “King Bee Shakedown” e “Pick Up The Pieces”, nas quais, o clima é de blues clássico mesmo, mas sem a dependência daquele que sempre foi o instrumento obrigatório: a guitarra.

Assim como o Lenine em seu novo projeto Em Trânsito, Bonamassa busca novas expressões para construir suas sentenças musicais e consegue convencer com o devido desenvolvimento das ideias. Shirley e o guitarrista conseguem desenvolver um conjunto interessante de sensações diferentes: tem blues mais geralzão, que ainda soa muito bem (“Love is A Gamble”); tem faixas que tomam uma certa energia e um balanço emprestados da soul music (“King Bee Shakedown”); tem faixas mais áridas, cheias de poeiras e uma veia mais dramática e acústica, como “Molly O’” e a faixa-título; e tem algumas baladas lindíssimas e plenamente convincentes, como “Self Inflicted Wounds” e “Stronger Now in Broken Places”.

Bonamassa sabe como poucos o poder que o silêncio tem. Mas aqui, ele não abusa do silêncio propriamente dito, mas da falta estratégica da guitarra em alguns momentos e da utilização econômica do seu instrumento principal. Se compararmos com alguns discos da sua fase mais antiga, percebemos como o guitarrista preza exatamente pela utilização das seis cordas nos momentos exatos, o que, no geral, favorece a sonoridade do coletivo e as ideias do conjunto, bem como o Slash no seu Living The Dream. Os solos são sensacionais, afinal, o cara é realmente muito competente, mas dispensam o show-off e o exagero pretensioso. São notas deliciosamente misturadas para gerar efeitos específicos e fazer o ouvinte sentir o gostinho, mas não ficar cheio demais.

Redemption é um disco feliz, rítmico, grandioso, mas quando parte para intimidade e para a tristeza sincera, tem o suficiente para cativar o ouvinte da mesma forma. Quando os arranjos são cheios e bem estruturados, com hierarquia de ideias e instrumentação, timbres e efeitos, o ouvinte se sente impressionado; mas quando Joe abre mão dos instrumentos e parte para o voz-guitarra, o ouvinte também sente a força das composições e do talento do músico. Quando os timbres são duros e ásperos, o disco se sai bem, já quando são limpos e os climas são intimistas, também. Um disco que reforça os acertos de uma carreira que sempre deu muito certo.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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