Tori Kelly acerta com o gospel de “Hiding Place”

Tori Kelly – Hiding Place (2018)

Por Gabriel Sacramento

A trajetória musical de Tori Kelly me lembra a da cantora Loreen: começo com pop de programas de calouros — ambas chegaram a participar — e uma mudança brusca do primeiro para o segundo registro. A diferença é que a sueca ganhou um grande festival e continuou no pop no segundo e inventivo disco, Ride (2017), ao passo que a americana, depois de um primeiro grandioso disco para as massas, resolveu focar no gospel em seu segundo, intitulado Hiding Place.

Mudanças bruscas em carreiras musicais são sempre traumáticas, mas menos quando os artistas estão em início de carreira como Tori Kelly. A cantora definiu o disco como um projeto que queria fazer há bastante tempo e, portanto, sem muita pretensão. Para a produção e para ajudar nas composições, contratou um mestre do gospel moderno: Kirk Franklin. Franklin trabalhou junto com outros nomes como Max Stark e Ronald Hill.

A primeira grande mudança a se notar é que Hiding Place faz mais uso de sutilezas sônicas. O minimalismo impera nas escolhas de Franklin e Kelly, dos instrumentais esparsos às harmonias bem definidas dos vocais. Por isso, a cantora pôde focar mais em desenvolver seus vocais e trabalhar o fluxo das melodias por entre as seções. Os melismas e interações entre vocais abrem o disco com a dançante “Masterpiece”, com uma boa participação do ótimo rapper Lecrae. “Just As Sure” é um pop folk singelo, com uma melodia quase natalina, já  “Never Alone” impressiona por ser econômica e delicada, aos poucos descambando em uma seção cheia de energia no final. Kelly fecha o disco com “Soul’s Anthem (It Is Well)”, uma música lindíssima que demonstra a força das harmonias vocais.

Os arranjos rejeitam a grandiosidade e os clichês de Unbreakable Smile e focam em desenvolvimento vagarosos de seções. Não é um disco com grandes instrumentações, já que os holofotes estão sobre a Tori Kelly e seus vocais, mas a consistência das bases é muito boa e é tudo muito claro para o ouvinte sobre a hierarquia dos instrumentos e as funções deles. Não dá para dizer as ideias são previsíveis, mesmo que não haja nenhum brilhantismo. Aqui, o foco é o equilíbrio.

Kelly explora muito bem suas possibilidades vocais, abusando de técnicas e de toda a sua capacidade vocal para entregar interpretações empolgantes e realmente emocionantes. Com a ajuda dos corais, ela consegue transliterar o sentido devocional das letras, com uma contrição marcante e vibrante. Sua voz também funciona bem em momentos dançantes, guiando as canções com variações melódicas rápidas e uma flexibilidade incrível.

Como um bom disco gospel, é um disco vocal, mas com interpretações que podem soar muito teatrais para alguns ouvintes, mesmo problema da Lea Michele em seu Places (2017). No entanto, o disco tem potencial e honestidade para alcançar os fãs do gênero —  que esse ano já foram agraciados com um discão do Snoop Dogg —, conquistando uma nova base de fãs para a americana. Um disco com potencial de mudar uma carreira e impulsionar novos rumos.  

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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