Chic volta pop e modernão em “It’s About Time”

Chic – It´s About Time (2018)

Por Gabriel Sacramento

Enquanto ouço It’s About Time, só consigo lembrar da apresentação do Chic no Rock in Rio 2017, com toda aquela vibe de festança contagiante até mesmo para quem estava longe da cidade do rock e aquelas pessoas no palco dançando e curtindo o momento no final. Performances tecnicamente impecáveis, um repertório cheio de hits e muita energia: isso é a receita para qualquer show da banda, mas também serve para descrever seus álbuns, inclusive este mais novo.

25 anos depois de Chic-ism (1992), o grupo renasce bem diferente, mas com a mesma liderança de sempre: Nile Rodgers. O guitarrista e produtor que moldou o estilo guitarra funk e definiu o estilo pop que fazia hits atrás de hits nos anos 80 continua sabendo muito bem como impressionar e criar canções extremamente dançantes e nada descartáveis, que visam o entretenimento e cativam por isso. Random Access Memories provou bem que Rodgers ainda consegue ser uma máquina de hits.

Se você acompanhou o guitarrista em suas parcerias recentes, com Keith Urban, Disclosure e Sam Smith, não vai estranhar o fato de que It’s About Time soa como um álbum pop modernão de gente de 25 anos. Sim, a proposta foi justamente essa. Acima de tudo, é uma prova de que a banda conseguiu atravessar as barreiras do tempo e encontrar novas formas de dialogar com o público de cada era. É um pouco como a atualização que George Clinton fez com o Parliament esse ano.

O disco traz Craig David, Vic Mensa, Emeli Sandé, Lady Gaga, LunchMoney Lewis e até mesmo Elton John. Os convidados têm muita autonomia e dão a cara do disco, com a voz dos rappers e cantores conversando diretamente com a guitarra funkeada do Nile e definindo todo o norte. O produtor conseguiu desenvolver uma sensação de festa sem fim e de diversão, que consegue, por 39 minutos, te fazer esquecer os problemas e a complexidade da vida real para querer simplesmente dançar ao som dos grooves.  

Nesse sentido, o disco me lembrou um pouco discos como o Bible of Love (2018) do Snoop Dogg, Funk Wav Bounces Vol. 1 (2017) do Calvin Harris e discos de produtores clássicos. Pois segue o modelo em que o produtor convoca os artistas para cantarem suas composições e seguirem a estética definida por ele. E, assim como nesses álbuns citados, a coesão é fantástica e tudo é amarrado com uma precisão absurda, como se estivéssemos ouvindo uma música só de mais de 30 minutos. A fluidez do disco faz com que o ouvinte ouça tudo de vez e não perca o beat por um segundo sequer.

A banda que já presenteou o mundo com hits da era disco como “Le Freak” e “Good Times” — essa crucial no início do hip-hop — consegue deixar tudo com cara de hit urgente. (parafraseando o LCD Soundsystem: você queria hits? É assim que o Nile faz hits.) A fórmula que fazia os músicos começarem com os refrãos e buscava a repetição deles ao extremo — eles precisam ser sempre muito bons para isso —, calcados sempre em uma sequência harmônica simples e em um groove fortíssimo permanece intocável. Não há truques, nem muita sofisticação. É só o pop sendo feito de uma forma bem simples e conquistando o ouvinte mesmo assim. Dito isso, vale destacar os momentos de mais elaboração instrumental na faixa que se abstém de vocais, “State of Mine”. Solos de guitarra e teclado brindam com vozes soltas e um baixo rigorosamente forte e presente, celebrando o show da musicalidade Chic.

Com uma mixagem que deixa tudo um pouco mais agudo e artificial, ao mesmo tempo em que passa uma sensação de forte compressão, sem muita dinâmica, o disco pode incomodar alguns ouvidos. Principalmente porque temos a constante sensação de estarmos ouvindo uma playlist genérica de canções para shopping, daquelas que você ouve enquanto compra roupas novas. Tudo isso pode ser uma barreira entre você e o disco, mas só se você pensar demais. Se acabar encarando a audição como algo leve e despretensioso, garanto que abrirá um sorrisão na regravação da clássica “I Want Your Love” com a Lady Gaga lá pelo final; ou com o Elton John se esforçando para cantar R&B em “Queen”. E quando perceber, vai notar que acabou até tirando os sapatos. 

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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