Ed Motta cada vez mais Ed Motta em “Criterion of The Senses”

Ed Motta – Criterion of the Senses (2018)

Por Gabriel Sacramento

O grande acerto da carreira de Ed Motta foi a sua guinada para uma veia mais experimental e tresloucada em 2002. Na época, quando lançou Dwitza, o cara decidiu abrir mão do pop que vinha marcando seus lançamentos e da busca por hits para iniciar um processo de busca pelo “som jazzy perfeito”. Começou abrindo mão das letras e investindo em ser guiado por onde as melodias o levavam. Sua busca incansável rendeu ótimos discos no percurso e chegamos, enfim, a essa última trilogia composta por AOR, Perpetual Gateways e Criterion of The Senses.

Criterion é o seu terceiro registro totalmente em inglês, concebido assim desde o início. Isso porque AOR nasceu em português e depois acabou ganhando uma versão no idioma mais falado do mundo. Motta já disse em entrevistas que acha que o inglês é o idioma ideal para o seu tipo de música. E se você considerar que até mesmo no português, ele acabava encontrando uma forma única de pronunciar as palavras, percebe facilmente que ele está certo. Neste disco, o cantor se encontra ainda mais confortável e alinhado ao que pensa sobre sua música.

Sua produção segue no mesmo estilo dos discos anteriores, de priorizar a sofisticação harmônica e o toque jazzístico de criatividade desmedida, mas também com preocupação com os climas. Em termos composicionais, seus discos são um primor: muitos acordes, harmonia complexa e dissonante o tempo todo e uma linguagem rítmica quebrada com síncopes e acentos que impactam o ouvinte. No entanto, Criterion segue uma linha jazzy menos tradicionalista que Perpetual. Ou seja, menos acenos à artistas como Jamie Cullum.

É interessante como o artista busca desenvolver pequenas facetas distintas e humores díspares dentro do próprio universo do disco, o que ajuda para que não fique hermético demais. A produção constrói vários climas com sucesso, mas especialmente a tensão. “Lost Connection To Prague” já começa com um groove de bateria ao estilo Neil Peart, com aquela mesma técnica de abertura de hi-hat acentuada, e um refrão mais tenso que os versos. Essa tensão, é claro, vem do encadeamento de acordes que não resolvem e da mixagem que esconde a voz nas bordas do espectro e confere um contorno mais grave. A mesma tensão dissonante, arrepiante e sufocante invade o clima do disco em “X1 In Test”, contrastando diretamente com o clima cool e soulful de “Sweetest Berry”.  

O solo lindíssimo de guitarra de “The Tiki’s Broken There” dá um tom meio John Scofield — ou Grant Green, se preferir. “Satisfaction is Mine” é a coisa mais pop que Ed lançou em anos, com um quê de R&B que dialoga sem medo com as referências americanas do gênero. No entanto, Motta opta por rechear a música de sintetizadores e eletronicidades extraterrestres, que só colaboram com o charme da mesma. Note o nível de precisão na edição e inserção de elementos específicos dentro do arranjo — assim como o rei do pop, Michael Jackson, adorava fazer. O clima do disco termina com nostalgia, mas também euforia em “Shoulder Pads”, uma música que evita a tensão que marcou as outras para expandir um pouco mais a atmosfera.

As escolhas musicais do Ed Motta reforçam sua originalidade e o fato de que ele consegue fazer exatamente o que deseja com sua música, sem interferências externas e obrigações estéticas. A sua produção é sempre muito segura e autoral e mantém o nível de pretensão e de sofisticação bem balanceados com o aspecto palatável. Em termos musicais, o disco deixa evidente a influência de Stevie Wonder, Donny Hathaway e Steely Dan. Alias, é incrível como o cantor consegue deixar as influências tão notáveis ao mesmo tempo que reforça sua identidade forte e única em cada vírgula do disco.

Ed Motta chega ao fim de mais uma trilogia em sua carreira solo, em que experimenta e chega um resultado exuberante e tremendamente marcante. Mais do que um exercício de intelectualidade musical, o disco reafirma a capacidade dele de nos fazer adentrar seu próprio universo criativo, sem passagem de volta.

Foto: Stefano Martino

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

Comentários

    Augusto Puga

    (12 de janeiro de 2019 - 20:11)

    Com todo respeito , um puta texto é uma análise precisa do disco . Parabéns pela crítica !

      Gabriel Sacramento

      (16 de janeiro de 2019 - 12:12)

      Olá, Augusto. Obrigado pelo elogio e por acompanhar o site 🙂

        João

        (17 de março de 2019 - 22:35)

        Este é o quarto álbum em idioma inglês. Em 2008 houve o álbum Chapter 9.

          Gabriel Sacramento

          (18 de março de 2019 - 14:59)

          Sim, João, mas eu quis dizer que é o terceiro concebido em inglês desde o início. Sendo assim, O AOR não conta.

          Abraço.

            João

            (19 de março de 2019 - 11:10)

            De fato, observado por esse ponto de vista sua análise está correta. É que eu pensava que as concepções português/inglês para o AOR teriam sido simultâneas; ou seja, ele já sabia que faria as duas coisas desde o início, e não ter tido a iniciativa do idioma inglês somente após ter lançado em português. Mas não sei se estou certo nessas observações. Abraços.

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